"Não somos os guerreiros culturais que pensamos ser": uma leitura cética sobre o crescimento dos evangélicos no Brasil
A projeção é razoavelmente precisa: até 2030 os evangélicos tendem a ultrapassar o número de católicos no Brasil.
Os dados do último Censo “esquentaram” a opinião
pública secular. O recente mapeamento apontou que o número de templos
religiosos no Brasil (pertencentes as mais variadas crenças religiosas) é
superior ao número de escolas e unidades de saúde. Não há dúvidas, a
secularização no Brasil é um produto consumido por uma elite culta,
consideravelmente distante do nosso “proletariado cultural”[1].
Este, transitando de uma forma bastante efetiva pelos mais diversos campos
religiosos, confirma a antiga máxima do debate em torno das sociedades
pós-seculares: “O Estado pode ser laico, mas a sociedade: não!”
No “mercado de bens simbólicos”[2],
cujo o discurso religioso interage, os crentes em geral estão cada vez mais assumindo
suas identidades religiosas, assim como assumem um novo modelo de iPhone. São
intensos, rápidos, fazem live no instagram e, se não houver mais nada de
interessante, eles trocam de deuses como trocam de desodorante. Candomblecistas
e Ayahuasqueiro estão cada vez mais “saindo do armário” e aprendendo com os
famigerados evangélicos (embora não os suportem) a como fazer “business”. O
mercado religioso “esquenta” sob os auspícios da socióloga francesa Daniele
Hervieu-Léger: “nossos tempos nos legaram o fim das identidades religiosas
herdadas” (inclusive entre os povos originários).
Dentre estes atores, os evangélicos despontam na
disputa por protagonismo e, ao que tudo indica, serão maioria no Brasil entre
as próximas décadas. Seu crescimento é estranho e diversificado, como bem
salientava um amigo: “antigamente os evangélicos eram uma coisa só”; os crentes
se diversificam entre denominações “lesbiterianas” e “startups”, envolvendo
jovens, redes sociais, política, artistas, sexy shopping, crossfits, gospel
tinder e por aí vai.
Para além do “gospel” propriamente dito, o crescimento
evangélico também é alimentado pelo clima de animosidade existente entre a
elite culta cosmopolita e o proletariado cultural. A escalada da disputa
existente entre valores morais, do âmbito das crenças para o âmbito jurídico,
com uma sutil dose de criminalização do imaginário moral conservador, força os
crentes a se organizarem politicamente. Acuados, os evangélicos apostam nas
esquisitas teologias do “domínio”[3] da
igreja da Alagoinha, demonstrando uma série de dificuldades com o estado
democrático de direito e com importantes princípios de pluralismo social e
liberdade religiosa.
Esse crescimento, com a finalidade ganhar o “Brasil
para Cristo”, me fez lembrar alguns importantes comentários do teólogo americano
Russel Moore, em seu livro “Como viver no mundo sem abrir mão do
Evangelho”[4]. Comentando sobre
o declínio da fé evangélica no “Bible Belt” (Cinturão da Bíblia), um conjunto
de doze estados norte-americanos profundamente marcados pela cultura
protestante, este afirma:
“Por um bom tempo, a igreja nos
Estados Unidos presumiu que o seu conservadorismo cultural era inerente ao
país, ou seja, que a maioria das pessoas pelo menos desejava, na esfera ideal,
viver à altura de nosso conceito do que é uma boa vida. Quem tem olhos para ver
precisa reconhecer que, se esses dias um dia existiram, eles não são mais
realidade” (MOORE, 2024, p.14).
Guardada as devidas diferenças, a provocação é
realizada em uma trajetória semelhante ao caso brasileiro. Ora, não há dúvidas
que mais de 80% da população brasileira tendem a subscrever as pautas de
comportamento conservadoras, no entanto as compreensões do cientista político
norte americano Alan Wolfe, retomadas pelo nosso autor, parecem nos indicar
algo:
“O cientista político Alan Wolfe
destaca que a retórica intensa e ultrajada dos evangélicos nas esferas
políticas e midiática costuma estar diretamente relacionada à ineficácia do
caráter distintivo do cristianismo em nossas salas de estar e bancos de igreja.
Wolfe afirma o seguinte acerca dos cristãos conservadores: ‘a incapacidade de
usar o seu poder político para diminuir os índices de aborto e divórcio,
internalizar um senso de obediência e respeito pelas autoridades nos
adolescentes e convencer tribunais e membros do poder legislativo a prestar
reconhecimento especial ao papel do poder do cristianismo na vida religiosa
americana cria, entre eles mesmos, uma máquina perpétua de indignação’. Embora
Wolfe possa estar exagerando em sua explicação, não está errado. Se o Cinturão
da Bíblia houvesse se apegado a uma vitalidade religiosa verdadeiramente
‘radical’, identificaríamos, nos lugares com maior índice de frequência regular
à igreja, uma forte discrepância em relação ao restante do país no que diz
respeito a harmonia conjugal, percentual de divórcio, hábitos sexuais,
violência doméstica e assim por diante. Não somos os guerreiros culturais que
pensamos ser, a menos que estejamos combatendo em prol do outro lado” (MOORE,
2024, p.30-31).
As observações vão de encontro a uma espécie de
“dispensacionalismo[5] de três povos” (Igreja,
Israel e Estados Unidos da América), cujo a nação americana acreditava
vivenciar até algumas décadas atrás. O declínio da cultura protestante no
Cinturão da Bíblia ensejou novos discursos políticos em torno da recuperação
dos “valores americanos” e, em nome desta agenda, pastores e políticos
corruptos subscreveram as mesmas “pautas”, mesmo estando em lados distintos, se
é que, o nosso crivo ético for realmente o Evangelho de Cristo.
No Brasil, a obsessão por “ganhar a sociedade” vai aos
poucos minando a sobrenaturalidade da fé cristã, transformando-a em qualquer
coisa com potencial engajador (seja à direita, seja à esquerda) e forçando-a a
cristianizar aliados úteis. Esses “marcadores tribais” disputam com outros
marcadores o coração da sociedade civil, produzindo nos evangélicos uma espécie
de “alienação engajada”. Se os valores mudam, a luta política por um país
cristão se intensifica, ainda que continuemos com altos índices de divórcios e criminalidade.
Como bem salienta Moore: “[...] seria uma tragédia ter
o presidente certo, o Congresso certo, mas o Cristo errado” (MOORE, 2024,
p.43). É da natureza do cristianismo sua preocupação missionária, no entanto,
também somos uma religião profética, que não compactua com a idolatria que
governa os corações humanos. A fé cristã não é um “meio” para o indivíduo ou a
sociedade chegar a qualquer outra coisa. A consciência que lhe é peculiar exige
da proclamação do Evangelho as exclusividades e rompimentos necessários, pois
um cristianismo sem tensão com a cultura é um cristianismo perigoso, tendente a
um crescimento fracassado.
Se o crescimento indiscriminado é a meta, nada impede
que esses índices também venham a diminuir com o passar dos anos, dada as
contingências que constituem a vida “em baixo do sol”. A pulverização
religiosa, resultante dos seus próprios fatores confusos de crescimento, já
estão transformando a fé cristã e pode, inclusive, a expulsar da arena pública,
conforme as novas tendências do mercado de bens simbólicos, ocupadas inclusive
por sociedades comunitárias atéias que ajudam a você a “viver na luz sem
religião”.
Moore ressalta: “A perda do Cinturão da Bíblia pode
ser uma má notícia para os Estados Unidos, mas, ao mesmo tempo, uma boa nova
para a igreja” (MOORE, 2024, p.16). Ainda que estejamos em crescimento, podemos
um dia nos converter de “uma maioria moral para uma minoria profética” (MORRE,
2024). Talvez ausentes do ecossistema cultural, consigamos responder com uma
maior atenção a pergunta de Jesus a Pedro: “Quem vocês dizem que eu sou?” (Mt
16.15).
NOTAS:
[1] As expressões “elite cultural cosmopolita” e
“proletariado cultural” são utilizadas pelo teólogo Guilherme de Carvalho para
representar as situações de disputa encontradas na sociedade brasileira em
torno de direitos, crenças e valores tradicionais e alternativos. As expressões
retomam o livro do britânico David Goodhart “The
Road to Somewhere: The Populist Revolt and the Future of Politics” que
discute o novo painel político-social aberto pelo identitarismo político, cujo
“minorias” e “maiorias” reconfiguram anseios e hegemonias políticas.
[2]
A expressão é utilizada por sociólogos para identificar o processo de
mercantilização dos “significados” associados a vida pisco-afetiva dos
indivíduos. A compreensão de que pessoas estão dispostas a “pagarem” por bens
de consumo de valor imaterial (felicidade, espiritualidade) constitui uma
fronteira significativa na sociedade de mercado disputada pelos discursos religiosos
e das chamadas “terapias breves” (coaches, autoajuda).
[3]
A teologia do domínio ou a “teologia dos sete montes” é uma expressão
espiritual oriunda do evangelicalismo americano que afirma a necessidade de a cultura
evangélica influenciar sete pilares civilizacionais: família, religião, educação,
mídia, entretenimento, negócios e governo.
[4]
MOORE,
Russel. Como viver no mundo sem abrir
mão do Evangelho; tradução de Cecília Eller. São Paulo: Mundo Cristão,
2024.
[5]
O dispensacionalismo é uma expressão teológica evangélica que afirma a gestão
de Deus sobre os seres humanos a partir de várias dispensações / “eras”. O
presente segmento é responsável por algumas leituras que endossam a compreensão
do Estado de Israel como “relógio profético do mundo”, por acreditarem que há
uma série de promessas relacionadas ao povo hebreu que deverão se cumprir pouco
antes do final dos tempos.


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