Onde encontrar Deus? Sobre o grito que até hoje impressiona o mundo
Desde o seu nascedouro que o discurso articulado da fé
cristã enfrenta opositores. Para além das dificuldades epistemológicas
acentuadas na produção de um saber divino, a teologia precisa lhe dar com
antagonistas detentores das mais diversas “bandeiras”. Sejam eles produtos da imaginação
persecutória de alguns teólogos ou inimigos reais que, dado o caráter
abrangente da proposta cristã, se colocaram e ainda se colocam contra a fé, a
verdade é que os teólogos nunca trabalham sozinhos, estando sempre à sombra de
disputas em torno da preservação ou crítica das “verdades recebidas”.
Talvez o pior dos seus oponentes, por engendrar
contradições que permeiam nossas “carnes” e “ossos”, seja aquele que emudece
qualquer pregador mediante a extensão do seu “aguilhão”. O apóstolo São Paulo o
conhecia bem: “O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Co 15.26). Seja
seu fim sombrio, assim como suas catarses por vezes antecipadas: traumas
psíquicos, angústias, neuroses; o aguilhão da morte nos espreita muitas das
vezes sem “causa”, lançando para a biblioteca dos pensadores da fé o já,
excessivamente (e sempre insuficiente) tematizado “problema do sofrimento”.
A questão me veio após o comunicado do falecimento
trágico do irmão de um amigo. Um atropelamento fatal de uma criança de 13 anos
que, não bastasse ter ceifado seu sonho de ser jogador de futebol, ainda lhe
tirou toda a dignidade de um sepultamento cristão, tendo que ter o seu corpo
coberto em virtude do grave estado em que ficara. O desespero atravessava os
corações dos seus parentes e amigos, induzindo-os ao que costumamos chamar de
“espírito da loucura”. As poucas respostas, a necessidade de se culpar alguma
coisa ou alguém, em fim... Tudo aquilo que perfaz o estado espiritual da
tragédia, dividia comigo o espaço onde eu e mais um outro pastor, iríamos falar
alguma coisa relacionada a Deus, fé, conforto, esperança...
A notícia me fora dada no fim de um dia em que me
ocupei estudando a obra do teólogo e filósofo católico São Tomás de Aquino. Pretensamente,
me atrevo a dizer que tive um pequeno vislumbre do que poderia ter sido a
reação que lhe é atribuída perto do fim da sua vida, quando afirmou: “tudo o
que escrevi me parece insuficiente”. Segundo a tradição, o Doutor Angélico,
conhecido pelo quase que onipotente edifício racional das suas construções
teológicas, teria afirmado antes de morrer que as obras que o elegeram patrono
da teologia católica e que, diga-se de passagem, foram precursoras do método
científico, não eram suficientemente adequadas a um tipo de experiência divina
que lhe sucedera.
Ninguém sabe ao certo que tipo de experiência tenha
sido essa. Na minha experiência, suas demonstrações racionais e quase que
irrefutáveis sobre a existência de Deus e as doutrinas cristãs, deixaram uma
lacuna “lógica” a um problema que, não escapara se quer, do coração de Jesus
Cristo. Não que não haja “explicações” na teologia tomista capazes de darem
conta da questão. O fato é que o problema não nos atinge apenas nestes termos.
Ora, o nosso Senhor Jesus Cristo não seria mais sábio
que o Aquinate para entender quais as implicações possíveis da liberdade
humana? E não apenas isto, mas não estaria ele plenamente consciente do
martírio que lhe esperava na semana da Páscoa? Ciente de tudo isso, no alto da
cruz ao gritar pelo seu Pai, ele sente aquilo que nunca fora possível ao Deus
judaico-cristão sentir, assim como, todos os tormentos que tal condição traz: a
experiência do desamparo. Nenhuma teologia fora suficiente para silenciar os
lábios de Jesus do grito que até hoje impressiona o mundo: “Por volta da hora
nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer
dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).
A questão do problema do sofrimento é antiga e
atravessa praticamente todas as crenças. Ela já tomava a preocupação filosófica
do ocidente desde o século quinto antes de Cristo e ocupou os principais temas
da tragédia grega. Segundo Hesíodo, o destino humano estava reservado ao tear das
“moiras cegas[1]” que detinham sob a sua fraca
visão o controle do futuro. Estas, ao subtraírem os poderes dos deuses
mitológicos, suscitavam a indagação dos céticos gregos: “Será que existem os deuses
para os quais nós oramos?”.
O debate adentra a tradição judaica, sobretudo na
história de Jó o “servo sofredor”. Não há paralelos para os seus males. Sem ser
explicado inicialmente da trama que estava participando, Jó fora acometido de
um terrível câncer de pele após ver toda a sua família ser destruída por
catástrofes naturais sem “causas”. Ainda que o bem e o mau em sua teologia
possam ser atribuídos a Deus, a ausência de uma consciência clara sobre os
possíveis motivos e razões para tanto, se encaixa perfeitamente na definição de
uma “tragédia”. Há no livro bíblico a história de um “herói hebreu”, temente a
Deus, que luta contra a aparente contingência cega e violenta do destino que o
alcançou em sua “infortuna”.
O problema teológico com a oração de Jesus na
crucificação é mais grave do que pensam muitos críticos da sua divindade e
daqueles que acreditam que tal afirmação depõe contra o dogma da Trindade. Quando
ouvimos da boca daquele, sobre o qual todas as coisas visíveis e invisíveis que
foram criadas encontram seu destino e propósito (Cl 1.16-17)[2],
um brado de sofrimento, as mais sofisticadas teodiceias[3]
que vão de Santo Agostinho à Leibniz, se demonstram intragáveis por mais que
sejam “logicamente” perfeitas. Se aquele que é a mais perfeita imagem da
divindade, se tem por abandonado, onde a humanidade poderia encontrar Deus?
Esse é o cerne do problema que nenhuma teologia alcançará
se não “conversar com Deus”, nem que seja da forma que o nosso Cristo
conversou. Um problema que não se dá apenas no território das reflexões, pois,
não há dúvidas que em termos lógicos e discursivos, a dádiva da liberdade traz
consigo a possibilidade do mal. Como o meu professor do seminário dizia: “não
há maldade no mundo das cadeiras”. Em termos teológicos, todos sabemos a
extensão do pecado original que atinge a “natureza que geme com dores de parto,
aguardando a redenção dos filhos de Deus” (Rm 8.19-23).
Tudo isto, embora seja suficientemente claro para um
cristão e inteligível até para quem não possui fé, não tira dos nossos corações
aquilo que também perturbou o homem mais perfeito que esse mundo recebeu. A
tragédia nos coloca em um estado psicológico de abandono, sobre o qual não há
outra alternativa a não ser, transformar a murmuração em prece. Fora isso que
fez o nosso Jesus Cristo. De coração honesto, pronunciou as palavras que até
hoje deixa a cristandade surpreendida.
A pergunta onde a humanidade pode encontrar Deus não
será suficientemente respondida com palavras, sobretudo, quando as conhecemos
de “cor e salteado” e, principalmente, quando elas não produzirem em nós o
sentido e o conforto que em algum momento produziam. Deus só pode ser
encontrado “nele mesmo” e para isso, fechamos os olhos quando oramos. A oração
de Jesus no alto da cruz nos ensina a sermos sinceros e colocarmos diante do
nosso Pai todas as perguntas e perturbações que nos aflige. Na sua presença há
respostas e a continuidade da ausência delas. No entanto, há também o mistério
do conforto e da confiança, que produziu em Jesus a coragem de terminar a
oração como terminou: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu Espírito”. (Lc 23.46).
Se as delícias que envolvia o jardim de Epicuro não
lhe fora suficiente no combate a seu ateísmo, a humilhação do nosso
crucificado, juntamente com o sentimento de abandono do Deus do Universo, não o
desencorajou a terminar sua oração com confiança. Confiança esta que após três
dias, lhe mostrou seus frutos.
Para os teólogos e sacerdotes que decidirem não
abraçar outras “esperanças”, não haverá saída, qual seja: abandonarmos os
slogans simples e hipnóticos, esvaziados de todo consolo verdadeiro (“processo
e propósito”, “resiliência”), e treinarmos a nossa espiritualidade
contemplativa que fora banida e até proibida em nossos púlpitos. Se Deus não
voltar a ser um fim em si mesmo nas nossas vidas, se ao invés de produzirmos
grandes palavras sobre a nossa vocação, a assumimos na integridade e nos
desafios que lhe são próprias, continuaremos abandonados às mentiras
existenciais que nos protegem por tempo determinado.
Esta é a verdadeira “coragem do ser”. Aquela que em
diálogo com Deus coloca a sua pergunta não respondida, terminando-a com
confiança, até o dia em que as fontes da água da vida serão o nosso destino e
“Deus enxugar dos nossos olhos toda a lágrima” (Ap 21.4).
NOTAS:
[1] As três deusas irmãs que segundo a teogonia
de Hesíodo eram responsáveis pelo destino dos seres e humanos.
[2]
Cl 1.16,17: “pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a
terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer
principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é
antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste”.
[3] A teodiceia consiste em um conjunto de
argumentos teológicos e filosóficos que visa defender a soberania e a bondade
de Deus frente a presença do mal no mundo.


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