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Emerson Silva
Pastor congregacional, Teólogo e Doutor em Ciências da Religião.

Onde encontrar Deus? Sobre o grito que até hoje impressiona o mundo


Desde o seu nascedouro que o discurso articulado da fé cristã enfrenta opositores. Para além das dificuldades epistemológicas acentuadas na produção de um saber divino, a teologia precisa lhe dar com antagonistas detentores das mais diversas “bandeiras”. Sejam eles produtos da imaginação persecutória de alguns teólogos ou inimigos reais que, dado o caráter abrangente da proposta cristã, se colocaram e ainda se colocam contra a fé, a verdade é que os teólogos nunca trabalham sozinhos, estando sempre à sombra de disputas em torno da preservação ou crítica das “verdades recebidas”.

Talvez o pior dos seus oponentes, por engendrar contradições que permeiam nossas “carnes” e “ossos”, seja aquele que emudece qualquer pregador mediante a extensão do seu “aguilhão”. O apóstolo São Paulo o conhecia bem: “O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Co 15.26). Seja seu fim sombrio, assim como suas catarses por vezes antecipadas: traumas psíquicos, angústias, neuroses; o aguilhão da morte nos espreita muitas das vezes sem “causa”, lançando para a biblioteca dos pensadores da fé o já, excessivamente (e sempre insuficiente) tematizado “problema do sofrimento”.

A questão me veio após o comunicado do falecimento trágico do irmão de um amigo. Um atropelamento fatal de uma criança de 13 anos que, não bastasse ter ceifado seu sonho de ser jogador de futebol, ainda lhe tirou toda a dignidade de um sepultamento cristão, tendo que ter o seu corpo coberto em virtude do grave estado em que ficara. O desespero atravessava os corações dos seus parentes e amigos, induzindo-os ao que costumamos chamar de “espírito da loucura”. As poucas respostas, a necessidade de se culpar alguma coisa ou alguém, em fim... Tudo aquilo que perfaz o estado espiritual da tragédia, dividia comigo o espaço onde eu e mais um outro pastor, iríamos falar alguma coisa relacionada a Deus, fé, conforto, esperança...

A notícia me fora dada no fim de um dia em que me ocupei estudando a obra do teólogo e filósofo católico São Tomás de Aquino. Pretensamente, me atrevo a dizer que tive um pequeno vislumbre do que poderia ter sido a reação que lhe é atribuída perto do fim da sua vida, quando afirmou: “tudo o que escrevi me parece insuficiente”. Segundo a tradição, o Doutor Angélico, conhecido pelo quase que onipotente edifício racional das suas construções teológicas, teria afirmado antes de morrer que as obras que o elegeram patrono da teologia católica e que, diga-se de passagem, foram precursoras do método científico, não eram suficientemente adequadas a um tipo de experiência divina que lhe sucedera.

Ninguém sabe ao certo que tipo de experiência tenha sido essa. Na minha experiência, suas demonstrações racionais e quase que irrefutáveis sobre a existência de Deus e as doutrinas cristãs, deixaram uma lacuna “lógica” a um problema que, não escapara se quer, do coração de Jesus Cristo. Não que não haja “explicações” na teologia tomista capazes de darem conta da questão. O fato é que o problema não nos atinge apenas nestes termos.

Ora, o nosso Senhor Jesus Cristo não seria mais sábio que o Aquinate para entender quais as implicações possíveis da liberdade humana? E não apenas isto, mas não estaria ele plenamente consciente do martírio que lhe esperava na semana da Páscoa? Ciente de tudo isso, no alto da cruz ao gritar pelo seu Pai, ele sente aquilo que nunca fora possível ao Deus judaico-cristão sentir, assim como, todos os tormentos que tal condição traz: a experiência do desamparo. Nenhuma teologia fora suficiente para silenciar os lábios de Jesus do grito que até hoje impressiona o mundo: “Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).

A questão do problema do sofrimento é antiga e atravessa praticamente todas as crenças. Ela já tomava a preocupação filosófica do ocidente desde o século quinto antes de Cristo e ocupou os principais temas da tragédia grega. Segundo Hesíodo, o destino humano estava reservado ao tear das “moiras cegas[1]” que detinham sob a sua fraca visão o controle do futuro. Estas, ao subtraírem os poderes dos deuses mitológicos, suscitavam a indagação dos céticos gregos: “Será que existem os deuses para os quais nós oramos?”.

O debate adentra a tradição judaica, sobretudo na história de Jó o “servo sofredor”. Não há paralelos para os seus males. Sem ser explicado inicialmente da trama que estava participando, Jó fora acometido de um terrível câncer de pele após ver toda a sua família ser destruída por catástrofes naturais sem “causas”. Ainda que o bem e o mau em sua teologia possam ser atribuídos a Deus, a ausência de uma consciência clara sobre os possíveis motivos e razões para tanto, se encaixa perfeitamente na definição de uma “tragédia”. Há no livro bíblico a história de um “herói hebreu”, temente a Deus, que luta contra a aparente contingência cega e violenta do destino que o alcançou em sua “infortuna”.

O problema teológico com a oração de Jesus na crucificação é mais grave do que pensam muitos críticos da sua divindade e daqueles que acreditam que tal afirmação depõe contra o dogma da Trindade. Quando ouvimos da boca daquele, sobre o qual todas as coisas visíveis e invisíveis que foram criadas encontram seu destino e propósito (Cl 1.16-17)[2], um brado de sofrimento, as mais sofisticadas teodiceias[3] que vão de Santo Agostinho à Leibniz, se demonstram intragáveis por mais que sejam “logicamente” perfeitas. Se aquele que é a mais perfeita imagem da divindade, se tem por abandonado, onde a humanidade poderia encontrar Deus?

Esse é o cerne do problema que nenhuma teologia alcançará se não “conversar com Deus”, nem que seja da forma que o nosso Cristo conversou. Um problema que não se dá apenas no território das reflexões, pois, não há dúvidas que em termos lógicos e discursivos, a dádiva da liberdade traz consigo a possibilidade do mal. Como o meu professor do seminário dizia: “não há maldade no mundo das cadeiras”. Em termos teológicos, todos sabemos a extensão do pecado original que atinge a “natureza que geme com dores de parto, aguardando a redenção dos filhos de Deus” (Rm 8.19-23).

Tudo isto, embora seja suficientemente claro para um cristão e inteligível até para quem não possui fé, não tira dos nossos corações aquilo que também perturbou o homem mais perfeito que esse mundo recebeu. A tragédia nos coloca em um estado psicológico de abandono, sobre o qual não há outra alternativa a não ser, transformar a murmuração em prece. Fora isso que fez o nosso Jesus Cristo. De coração honesto, pronunciou as palavras que até hoje deixa a cristandade surpreendida.

A pergunta onde a humanidade pode encontrar Deus não será suficientemente respondida com palavras, sobretudo, quando as conhecemos de “cor e salteado” e, principalmente, quando elas não produzirem em nós o sentido e o conforto que em algum momento produziam. Deus só pode ser encontrado “nele mesmo” e para isso, fechamos os olhos quando oramos. A oração de Jesus no alto da cruz nos ensina a sermos sinceros e colocarmos diante do nosso Pai todas as perguntas e perturbações que nos aflige. Na sua presença há respostas e a continuidade da ausência delas. No entanto, há também o mistério do conforto e da confiança, que produziu em Jesus a coragem de terminar a oração como terminou: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu Espírito”. (Lc 23.46).

Se as delícias que envolvia o jardim de Epicuro não lhe fora suficiente no combate a seu ateísmo, a humilhação do nosso crucificado, juntamente com o sentimento de abandono do Deus do Universo, não o desencorajou a terminar sua oração com confiança. Confiança esta que após três dias, lhe mostrou seus frutos.

Para os teólogos e sacerdotes que decidirem não abraçar outras “esperanças”, não haverá saída, qual seja: abandonarmos os slogans simples e hipnóticos, esvaziados de todo consolo verdadeiro (“processo e propósito”, “resiliência”), e treinarmos a nossa espiritualidade contemplativa que fora banida e até proibida em nossos púlpitos. Se Deus não voltar a ser um fim em si mesmo nas nossas vidas, se ao invés de produzirmos grandes palavras sobre a nossa vocação, a assumimos na integridade e nos desafios que lhe são próprias, continuaremos abandonados às mentiras existenciais que nos protegem por tempo determinado. 

Esta é a verdadeira “coragem do ser”. Aquela que em diálogo com Deus coloca a sua pergunta não respondida, terminando-a com confiança, até o dia em que as fontes da água da vida serão o nosso destino e “Deus enxugar dos nossos olhos toda a lágrima” (Ap 21.4).


NOTAS:



[1] As três deusas irmãs que segundo a teogonia de Hesíodo eram responsáveis pelo destino dos seres e humanos.  

[2] Cl 1.16,17: “pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste”.

[3] A teodiceia consiste em um conjunto de argumentos teológicos e filosóficos que visa defender a soberania e a bondade de Deus frente a presença do mal no mundo.


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