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Emerson Silva
Pastor congregacional, Teólogo e Doutor em Ciências da Religião.

Black Mirror e o nosso futuro distópico: "a maior obra de arte do século XXI"

(Contém spoiler)

Das circunstâncias mais sombrias, onde claramente se vê as quatro escaladas do pós-humano: corpo, inteligência, espaço e biosfera (SANTAELLA, 2000)[1] se constituírem em um castelo de horrores, até as sátiras mais bizarras de como a nossa espécie vai se transformando em espectros cibernéticos, Charlie Brooker e toda a produção envolvida na série Black Mirror, demonstram precisão criativa ao tratar as mais absurdas distopias que se aproximam. Ainda que de modo fictício, a série pontua muito brilhantemente algumas das formas atuais e futuras de nos relacionarmos uns com os outros, mediante o tipo de sociabilidade que os avanços tecnológicos nos impõem. 

A série de artigos sob o título inicial de “Black Mirror e o nosso futuro distópico”, visa discutir questões e levantar problemáticas em torno dos seus mais intrigantes episódios que apresentam o nosso futuro “pós-humano”. A máxima de que “os seres humanos não podem ser concebidos como originalmente foram ‘concebidos’”, atravessa todos os episódios ensejando incontáveis perspectivas sobre o que já se poderia chamar de “antiga” natureza humana.

A World Transhumanist Association, organização criada por entusiastas dos incursos tecnológicos na vida humana, aponta em sua declaração os seguintes valores:

“ (1) A humanidade será profundamente afetada pela ciência e tecnologia no futuro. Nós vislumbramos a possibilidade de superar plenamente o envelhecimento, a perda cognitiva, o sofrimento involuntário e nosso confinamento no planeta Terra. (2) acreditamos que o potencial da humanidade ainda não foi realizado. (...) (7) reivindicamos a legitimidade da escolha pessoal sobre o modo de viver a própria vida. O que inclui o uso de técnicas que podem ser desenvolvidas para assistir à memória, concentração e energia mental; terapias de extensão da vida; tecnologias reprodutivas de seleção; crionização”[2]

A série aponta algumas possíveis implicações práticas desta afeição pelo advento tecnológico, mostrando o reflexo sombrio por detrás de toda esta superestimação.

O primeiro episódio da primeira temporada: “The Nathional Anthem” (O hino nacional)[3] traz a dramática história do sequestro da princesa Susannah. O primeiro ministro britânico Michel Callow, interpretado pelo ator inglês Rory Kinnear, é acordado ás 03h da manhã com a notícia do incidente, seguida da “única exigência” feita pelos criminosos: para que a princesa seja liberta o Premier precisa manter relações sexuais com um porco em rede nacional.

O horário estipulado para a exigência vai se aproximando, gerando “tração” no Twitter quando um suposto dedo da princesa é cortado e entregue a uma importante empresa de mídia do Reino Unido. Não há outra alternativa para os cidadãos ingleses e para a assessoria do Ministro: ele precisa atender as exigências e salvar a princesa! Se não: “Para o público esse seria um homem de popularidade questionável, colocando a vergonha pessoal acima da vida de uma garota jovem”. Em menos de 24 horas toda a sua vida fora transtornada. Callow tem contra ele quase que um clamor nacional para realizar o tenebroso ato diante das câmeras do mundo inteiro.

Não havendo saída, o Premier atende as exigências e determina que nenhuma televisão fosse ligada durante a transmissão. O que fora inútil. A espetacularização daquele ato “transhumano” quebrou a desinteressante rotina do povo inglês que olhava para tudo aquilo com um profundo sentimento de participação, julgando ser um “evento histórico”.

Após o término da transmissão, a assessora de Callow recebe uma ligação afirmando que a princesa havia sido solta 30 minutos antes do ato. Ao indagar sobre o motivo da sua libertação antes do que fora combinado, a pessoa responde que o sequestrador saberia que ninguém estaria na rua ou envolvido com qualquer outra atividade a despeito da transmissão. Ou seja, toda a Londres haveria de parar para presenciar a humilhante cena envolvendo primeiro ministro.

O primeiro episódio toca desde início nos atravessamentos que permeiam a nossa condição. “Cruzar com um porco” é um ato disruptivo para a nossa espécie e, na dinâmica da série, tornar-se arquetípico para as experiências humanas relatadas – como se observará em todos os episódios que se seguirão, relatando o cruzamento humano com as tecnologias disruptivas e o fascínio que estas simbioses produzem.

A ideia de que o ato, cujo Primeiro Ministro britânico está envolvido, depõe contra a espécie humana ainda que possa ser interpretado como um “evento histórico”, é o principal mote que será problematizado e analisado pelos mais diversos ângulos entre: as esquizofrenias ensejadas pelos avanços tecnológicos e o seu “verniz” desenvolvimentista. A desumanização é controvérsia. Diverte os consumidores de conteúdo digital e constitui a base de uma identidade pátria, que passa por cima como um trator da dignidade pessoal de Callow em nome do bem “público” personificado na princesa.

A inversão de valores que permeia o episódio toma nos minutos finais uma das suas melhores formas de crítica ao “deus deste século”: toda esdrúxula circunstância provocada se trata de uma “performance” artística. O sequestrador é um reconhecido e premiado artista britânico que articulou toda a situação como se estive pintando um quadro e expressando as suas “expressões”. Ao que chamou: “a maior obra de arte do século XXI”.

Em síntese, reproduzo o título da crônica escrita pelo jornalista brasileiro Arnaldo Jabor, sobre uma suposta entrevista que lhe fora concedida pelo chefe do PCC Marcos Caramacho (Marcola): “Estamos todos no inferno”.



[1] SANTAELLA, Lucia. Cultura das Mídias, São Paulo: Experimento, 2000.

[2] Declaração Transhumanista. Disponível em: https://universoracionalista.org/declaracao-transhumanista/.

[3] Black Mirror: The Nathional Anthem. Direção: Otto Bathurst. Roteiro: Charlie Brooker. 2011. Duração: 44 min.

 

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