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Emerson Silva
Pastor congregacional, Teólogo e Doutor em Ciências da Religião.

Black Mirror e o nosso futuro distópico: "Outramente que Ser ou mais além da essência"

Contém spoiler 

Sarah: - Você clica no link e fala com ele.

Martha: - Como assim falar com ele?

Sarah: - Você digita a mensagem como em um e-mail, ai ele reponde para você do jeito que ele fazia.

Martha: - Ele morreu... (desespero)

Sarah: - É um software, vai imitar ele. Você manda o nome de alguém, ele pesquisa e lê todas as coisas que a pessoa já disse na internet. As atualizações de facebook, twitters... Qualquer coisa pública. Eu só dei o nome do Ash e o sistema visa o resto. É tão inteligente...

Martha: - Mas isso é doentio... É doentio (choro)

Sarah: - Ah, só dá um alô para ele... E se gostar, permita que acesse os e-mails privados dele. Quanto mais tiver, mais vai parecer com ele.

Martha: - Mas não é ele... (choro)

Sarah: - Não, não é... Mas ajuda muito.

(Contém spoiler)

A obra: “Autrement qu’être ou au-delà de l’essence”, que tem sua tradução em português como subtítulo deste artigo, do filósofo lituano-francês Emmanuel Levinas, consiste em uma das mais fecundas reflexões sobre o problema filosófico de Deus, mais especificamente entre a conceitualização ontológica e o acontecimento ético. A “intriga levinasiana” se dirige as discussões que atravessam todo o ocidente em torno da tematização filosófica do Deus judaico-cristão e, em que medida, essa tematização realmente pode se permanecer autêntica frente ao Deus que se revela na Torá.

A cada argumento, seus leitores se movimentam dentro de um contexto de reflexões que, ora subscrevem suas asserções, ora as rebatem. Haja vista as possibilidades e os limites da linguagem no que concerne a compreensão e expressão da experiência humana, sua leitura é um exercício fidedigno de academia platônica, nos fazendo movimentar em torno do mais auto pleito do debate intelectual: a ideia de Deus.

Em linhas gerias, (tão gerais que me envergonho desta síntese) Levinas defende de uma forma quase que restrita, que o conhecimento do Deus judaico cristão se firma em um ato de auto revelação. É acontecimento “puro”, que se entremeia na constituição dos seres encarnados que criou, mais especificamente na fonte corpórea da nossa alteridade ética: o rosto. O percurso filosófico tomado pelo autor é consideravelmente extenso para as pretensões deste artigo. Endosso que: a interpretação levinasiana que toca na exclusiva e ininteligível acepção teórica da singularidade divina é que suscita uma série de questões que, por hora, nos interessa.

Há uma espécie de “núcleo” humano misterioso que tem origem nesta singularidade própria de Deus (vide sua declaração proferida em meio a sarça ardente: “Eu Sou o que Sou”). Este “centro” tornou-se objeto de reflexão por toda a história do pensamento filosófico e psicanalítico, consistindo em um dos motes fundamentais do primeiro episódio da segunda temporada da série Black Mirror. Refiro-me a ideia do “Eu”. Um tipo de eixo reflexivo que toca muito substancialmente no centro da nossa personalidade (Retomarei em breve essa discussão).

O episódio “Be right back” (Volto Já), um dos episódios mais tristes da série, que tem como personagens principais a artista plástica Martha, interpretada pela atriz Hayley Elizabeth (com uma brilhante interpretação no universo Marvel como a agente Carter) e o seu namorado Ash, interpretado pelo ator irlandês Domhnall Gleeson, conta a história de um jovem casal que teve suas vidas atravessadas pela morte e por uma espécie de “ressurreição tecnológica alquímica”.

Martha e Ash se mudam para uma casa de campo que outrora pertencia a mãe do seu namorado. Preparando-se para devolver o transporte que alugaram para a mudança, ele se despede de Martha com o tipo de irreverência que lhe é própria e proferindo a conhecida frase que atribui confiança na vida e nas rotinas que ela impõe: “Volto já!”. Como fica claro desde o início do episódio, Ash disputa a atenção do trânsito com a tela do celular, o que provavelmente fora a razão do acidente que ceifou a sua vida.

No velório, a amiga de Martha lhe informa que existe a possibilidade de passar por esse processo de luto de uma forma menos dolorosa:

“Eu posso te inscrever em uma coisa que pode te ajudar muito. Que me ajudou muito. Vai permitir que fale com ele. Eu sei que ele morreu, mas não funcionaria se não estivesse morrido. E não se preocupa, não é uma coisa espiritual maluca. Ele era muito conectado e seria perfeito. Quer dizer, ainda está em ‘beta’ e eu recebi o convite. Você não tem que fazer nada...”

Martha interrompe a fala da sua amiga, convicta da loucura que estava escutando. Como assim falar com um software de computador capaz de desenvolver algoritmicamente as características cognitivas do seu namorado falecido e interagir em tempo real com ela? Como fica claro no diálogo que elas continuarão tendo posteriormente, (reproduzido no parágrafo inicial deste texto) isso era algo “doentio”.

A proposta de Sarah, embora seja claramente identificada pela personagem como um tipo de neurose induzida, vai aos poucos despertando a atenção da sua amiga que, sofrendo com a ausência de Ash e com a descoberta da sua gravidez, é lançada em crises de ansiedade e angústia muito profundas. Um sentimento misto de “busca de consolo” e “curiosidade” vai tomando conta do coração de Martha que decide repentinamente programar o sistema para usá-lo.

A cena é impecável! Produzindo no telespectador a experiência neurótica própria ao contexto distópico: A atriz chora após ouvir o algoritmo responsável pela reprodução voz do Ash e contar para “ele” sobre a sua gravidez.

O relacionamento entre “eles” vai evoluindo: Martha passa horas e horas conversando com o software, viajando com ele para os lugares que costumava visitar, levando-o para o pré-natal. O próprio avatar do falecido se espanta: “É muita doideira eu poder falar com você. E eu nem tenho boca (risos)”.

O relacionamento dos personagens entra em um segundo nível mais assustador. O software informa a Martha sobre a possibilidade de ser logado em um corpo sintético. Há disponível no mercado dos “afetos técnicos” da época um tipo de androide revestido de elementos bioquímicos, semelhantes a epiderme humana. Este além de deter todos os aspectos físicos (semelhança de corpo, olhos, cor de cabelo) de Ash pode “ganhar” vida mediante o upload do software. Martha agora teria a “voz” e o “corpo” do seu namorado falecido andando pela sua casa. O impacto visual é muito forte e confunde psicologicamente a personagem que diz em lágrimas após adquirir o intento: “Eu senti sua falta”.

A possibilidade de ter novamente o seu namorado é satisfatória em termos visuais (e sexuais), mas por diversas vezes é embaraçosa, dado o fato dela não conseguir lhe dar com a ausência de uma singularidade própria a um suposto “Eu Ashiano”. O software encarnado não precisa dormir, se alimentar, ou discordar dos seus posicionamentos. Todas as suas reações são pré-programadas visando atender as demandas do programador. Não há nenhum tipo de conflito, choque de ideias ou qualquer outro tipo de insatisfação própria de seres humanos reais.

Vai ficando cada vez mais claro que o tipo de satisfação sensória que Martha obtém não é o suficiente para trazer o seu verdadeiro namorado para perto dela. Ou seja, parece que a experiência niilista do “gosto” falhou! O conjunto de afetos desenvolvidos pelos algoritmos, ainda que tenham a capacidade de produzir nela um “orgasmo”, não consegue estabelecer o conjunto de tensões próprias que comportam uma experiência real, com todos os desconfortos e alegrias que ela produz.

O verdadeiro Ash discordaria dos seus posicionamentos, possuiria gostos distintos, seria mais autêntico nas falas. Este deteria o coeficiente de atividades e contradições normais que qualquer pessoa real teria e não, um software pré-programado que em todas as “DRs”, propõe soluções através do seu conjunto de algoritmos direcionados: “Você quer fazer sexo?”, “Você quer que eu faça comida?”, “Você quer que eu te xingue?”.

O fim da trama continua em torno da mesma obscuridade que permeia todo o episódio. Na última cena, Martha aparece com a sua filha e com o Androide, este preso no mesmo sótão que estão as fotos da mãe, pai e irmão de Ash que haviam falecido, esboçando um tenebroso olhar fixo para a parede. 

Retomando as discussões iniciais em torno da filosofia levinasiana, Deus e os seres humanos são detentores de um tipo de singularidade impossíveis de serem totalmente compreendidas e replicáveis, seja em um conjunto de proposições teológicas, seja em softwares ou estruturas sintéticas que repliquem um conjunto de funções corporais. Ao que parece, poucas coisas são discerníveis nestas singularidades absolutas. Uma delas (não tão discernível assim, mas pelo menos “nomeável”) é a possibilidade de denominar um conglomerado de experiências centrais em torno do desenvolvimento da nossa personalidade com a palavra: “Eu”. 

Este “eu” (humano) parece residir em um território alimentado por bens simbólicos cujo, a religião ainda se demonstra como um tipo de “fonte”. Alimentando importantes perspectivas que atravessam de uma forma bastante eficaz a nossa constituição pessoal.

Nos debates pós-humanistas em torno do futuro da religião, os prognósticos freudianos sobre o seu fim, cederam lugar a outros tipos de perspectivas. Os diversos movimentos culturais e políticos de dessecularização e “reencantamento do mundo” demonstram que toda aquela história de uma “neurose obsessiva da humanidade” parecia ter sido coisa de “consultório de analista”. Dito de outro modo, a tal história dos ressentimentos envolvendo a paternidade humana não é o único contexto de formação e assentamento das crenças religiosas.

Nos ciclos de discussão em torno do futuro da natureza humana ou da “antiga” natureza humana, as novas previsões tocam mais substancialmente nos aspectos funcionais das crenças e como os avanços tecnológicos podem substituir seus bens simbólicos. Ou seja: dos mecanismos provenientes da engenharia genética sobre a reprodução assistida até um tipo de existência continuada nas “nuvens”, as NBICS (nanotecnologias, biotecnologias, ciências da informação e ciências cognitivas) trabalham com toda trajetória temporal da espécie, maximizando e minimizando funcionalidades corporais que muito nos interessa.

O episódio “Volto Já” nos coloca no curso da “eugenia liberal” (Jürgen Habermas). A sociedade de mercado, que hoje já consegue trabalhar a espécie humana em torno dos seus custos a serem diminuídos e benefícios a serem ampliados, muito em breve nos dará uma alternativa às crenças espíritas, tirando da obscuridade as almas desencarnadas e lhes dando corpos, inclusive melhores do que os corpos dos vivos.

A tecnologia, seja em suas formas primitivas às suas versões mais distópicas, tem a capacidade de nos mostrar que a vida humana pode ser completamente diferente do que tem sido. Da criação de uma alavanca até a hipótese de um “upload” da consciência em um corpo infinitamente mais aprimorado dos que os nossos organismos atuais, as mudanças ocorridas nas sociedades humanas foram e serão incomensuráveis. Ainda que as atuais pretensões sejam fictícias ao extremo, as distopias sociais que podem ser causadas por um grupo de pessoas comprometidos com tais mudanças pode e, tem sido, implacáveis.

As reflexões que o episódio nos coloca são muitas: E se pudéssemos ter algo a mais do que fotos, roupas e objetos dos nossos entes queridos que morreram? A vida, já comumente “editada”, nas plataformas de redes sociais poderia chegar a um nível de edição maior? O que factualmente, ou melhor dizendo “juridicamente” (uma vez que o ativismo jurídico, que por si só já traduz um tipo de despersonalização humana, vem abarcando todos os anseios humanos) me impediria de viver imerso em simulacros do mundo real que poderiam me trazer um tipo de satisfação melhor do que o mundo fora das telas? Até quando ainda será preciso morrer?

 

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