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Emerson Silva
Pastor congregacional, Teólogo e Doutor em Ciências da Religião.

Black Mirror e o nosso futuro distópico: o fim da política

 

Artigo sobre o episódio 3 da segunda temporada (contém spoiler)

“O que faz um deputado federal? Não sei. Votem em mim que eu descubro!”. “Vote no Tirica, pior que tá não fica”.

Estes bordões que viralizaram por todo o Brasil, foram as máximas responsáveis pelo palhaço de circo e comediante Francisco Everaldo Oliveira Silva (o “Tiririca”) ser o deputado mais votado do Brasil no ano de 2010 com 1,3 milhões de votos, levando mais 4 cadeiras do parlamento. A segunda maior votação da história para deputado no Brasil elegeu um “palhaço de verdade” para as fileiras do nosso legislativo, gerando muitas risadas nos botecos e análises políticas no debate público.

A escalda observada do entretenimento à política, percorrida por muitos atores e influenciadores digitais no Brasil e no mundo, apontam para que mudanças no âmbito sócio-político das democracias liberais? Ainda faz algum sentido a leitura de Thomas Hobbes, Stuart Mill, Karl Marx e companhia? Um bom “marketing de causas” já não cumpriria bem a devida funcionalidade?

Durante os últimos anos Tiririca não esteve só. Houve influenciador digital infantil que para defender o então presidente Lula ressaltou a relevância dos partidos de esquerda em países nórdicos (What?). O argumento deste jovem garoto promissor, nos força a acreditar que países como Dinamarca e Finlândia podem se assemelhar a Nicarágua e Venezuela, estes últimos governados por partidos de esquerda organicamente próximos ao nosso Partido dos Trabalhadores, diga-se de passagem. 

A escalada não para. Tivemos ator pornográfico se elegendo em torno de pautas “conservadoras” e candidata ao governo de estado que em debate, esteve deveras preocupada em fazer sua opositora assumir publicamente em que candidato votaria, deixando claro o tipo de importância que dará entre a imensa quantidade de problemas concretos que assolam quase que unanimemente todos os estados deste país e a polarização política necessária para a sua eleição.

Embora haja exceções, é inquestionável o grau de competência, coragem e patriotismo que o ex-comediante e então presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky tem demonstrado pelo seu povo, a verdade é que o brilhantismo intelectual de um Fernando Henrique Cardoso ou de um Mário Vargas Llossa (Peru) não indica (não sei se algum dia indicou) nenhum tipo de “expertise” necessária para os cargos políticos ocupados dentro dos nossos três poderes.

É na esteira destas reflexões que se apresenta o icônico personagem “Waldo” do terceiro episódio exibido na segunda temporada da série Black Mirror: “The Waldo Moment”. Waldo é um desenho digital de um urso azul manipulado pelo personagem Jamie Salter, interpretado pelo ator Daniel Rigby. Caracterizado pela forma disfarçadamente infantil do seu programa de entrevistas, ele conversa com candidatos à política nacional de forma debochada e obscena, ressaltando a irrelevância política de cada um deles.

O episódio inicia com a entrevista de uma candidata de centro-esquerda à vaga do parlamento que fora aberta por ocasião do envolvimento de um membro do partido conservador britânico em um caso de pedofilia. Gwendolyn Harris, interpretada pela atriz Chloe Pirrie, pleiteia a inscrição no partido visando à vacância deixada nos distritos de Stentonford e Hersham. À comissão de seleção, ela declara que deseja se candidatar movida por uma profunda insatisfação com o atual estado de coisas no Reino Unido, afirmando um importante adendo no final da conversa: “Desejo também usar minha candidatura como ferramenta de promoção pessoal”.

Na sequência, o personagem Waldo aparece entrevistando o candidato pelo Partido Conservador Liam Monroe. Em meio aos palavrões, próprios à agressividade “clichê” com que comenta os principais problemas políticos do país, Waldo arranca aplausos e admiração de toda a plateia e dos telespectadores que cada vez mais escalam o destaque político-midiático do desenho digital em detrimento de qualquer tipo de credibilidade relacionada ao candidato.

Jamie, a “voz” do Waldo, é um jovem operador digital que sofre com graves problemas de autoestima. Após se envolver amorosamente com a candidata Harris e revelar ser o comediante que opera o urso digital, ela decide cortar relações com ele até o fim do pleito alegando: “interesses de campanha”. Os horizontes escusos existentes no universo político aguçam cada vez mais a agressividade de Salter na interpretação do personagem, o que faz a escalada do seu sucesso cada vez mais aumentar entre o público.

O personagem Jack Napier, interpretado pelo ator Jason Flemyng, responsável pelos direitos autorais do urso digital, decide ir mais longe frente ao sucesso da sua criação: candidatar o Waldo na eleição distrital. Uma incrível estratégia de publicidade envolvendo toda comoção nacional em torno do seu desenho. Extremamente insatisfeito com toda a repercussão envolvendo o Waldo, Jamie demonstra total reprovação pela ideia:

(Jamie): - O Waldo não é real!

(Napier): - Exatamente! Foi isso que você disse que chamou a atenção: “Ele não é real!” Mas ele é mais real do que todos os outros.

(Jamie): - Ele não defende nada. Não tem ideologia...

(Napier): - Sim... Bem... Mas pelo menos ele não finge! Olha, nós não precisamos de políticos. Nós todos temos iPhones e computadores, certo? Então, qualquer decisão que tenha que ser tomada nós colocamos online. Deixamos as pessoas votarem: dedos para cima (curtir) ou dedos para baixo (não curtir). A maioria vence. Isso é democracia! Isso é democracia de verdade!

A resistência de Jamie é inútil. O Waldo já havia se tornado muito superior a ele. Embora Salter tenha desistido da ideia de última hora, o obsceno urso digital, agora operado pelo seu criador Napier, se candidata ao posto político obtendo a segunda colocação. 

O fim do episódio registra a miséria social que Jamie entrou após se recusar a participar das eleições. Ao ser acordado por um grupo de policiais na rua, Salter ver o sucesso internacional que o seu antigo personagem obteve em todos os painéis digitais espalhados pela cidade. Em todas as partes do mundo, agora com um discurso bem mais sofisticado em torno de causas políticas importantes que envolvem a biodiversidade, democracia e direitos humanos, o Waldo se tornou uma espécie de “Greta Thunberg”, ganhando além de reconhecimento político, investimento de todas as grandes corporações multinacionais comprometidas com as grandes “pautas” da humanidade.

O Waldo encarna um tipo de perspectiva político-social própria à reconfiguração das sociabilidades humanas após o advento das redes sociais. Estas intensificaram a visibilidade dos atores sociais que passaram a se sentir profundamente participantes da vida política do seu país, independentemente do que signifique a palavra “participar” para cada um deles; ao mesmo tempo em que capilarizaram discursos que afetam diretamente a existência das próprias instituições democráticas envolvidas neste processo. Sua semelhança com personalidades como Jair Bolsonaro e Donald Trump é icônica, traduzindo um tipo de ressaca moral do eleitorado médio em boa parte dos países do mundo. Estes não sabem muito bem mais para onde ir em termos de política e, em virtude disso, aguçam as contradições do sistema eleitoral apostando no “outsider” mais popular trabalhado pelas mídias sociais.

As ideologias políticas sedem espaço a uma espécie de chauvinismo profundamente vagabundo, justificado por um simulacro de “democracia direta”, cuja “dedos para cima” e os “dedos para baixo” tornou-se a principal fonte representativa de um povo sem nenhum tipo de credibilidade na burocracia das instituições democráticas.

Em contrapartida, seria uma ingenuidade perigosa acreditar no escopo teórico das “antigas” narrativas políticas. As ideias, sejam elas sob que perspectivas forem, se erguem a partir de recursos materiais minimamente estabilizados que na maioria das vezes independem do mais brilhante marxista ou neoliberal.

Após depor seus líderes, as democracias liberais intentam de uma forma muito divertida acabar de vez com o sistema político. A escalada do entretenimento à política acontece na mesma intensidade em que países como Rússia e China, cada vez mais ensaiam novos tipos de configurações sociais que sepultarão quase que totalmente o leque de disputas ideológicas. Dando comida e segurança para todos os seus súditos, os novos players da geopolítica mundial pretendem de uma vez por todas comprometer-se com o fim das “desigualdades sociais” sem fazer uma única eleição. Como bem salientou um dos investidores da sua campanha: “O Waldo é o assassino perfeito!”.

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