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Emerson Silva
Pastor congregacional, Teólogo e Doutor em Ciências da Religião.

Black Mirror e o nosso futuro distópico: Vigiar e Punir II


Artigo sobre o último episódio da segunda temporada (contém spoiler)

“O conceito de razão técnica é talvez também em si mesmo ideologia. Não só a sua aplicação, mas já a própria técnica é dominação metódica, científica, calculada e calculante (sobre a natureza e sobre o homem). Determinados fins e interesses de dominação não outorgados à técnica apenas, posteriormente, e a partir de fora – inserem-se já na própria construção do aparelho técnico; a técnica é, em cada caso, um projecto histórico-social; nele se projecta o que uma sociedade e os interesses nela dominante pensam fazer com os homens e as coisas” (Herbert Marcuse)[1]

As menções feitas por Herbert Marcuse na citação acima, reproduzidas no célebre texto redigido pelo filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas: “Técnica e ciência como ideologia”, não é a última palavra sobre o desenvolvimento técnico e científico no ocidente, mas nos ajuda a pensar este curso de uma forma menos encantada e ciente dos possíveis contextos sociopolíticos que geram estas transformações.

Apesar de todos nós desejarmos a inserção nestas engrenagens do mundo técnico, ninguém sabe ao certo as reais motivações e o destino final de todas estas transformações das mais simples as mais complexas. Em Black Mirror, um misto de avanços e distopias se entrecruzam, a ponto de não ser possível discernir onde cada uma destas coisas começam e terminam. Talvez esse seja o diagnóstico e prognóstico mais adequado à situação. As civilizações humanas nunca foram perfeitas, sendo muita ingenuidade acreditar que o desenvolvimento técnico nos colocaria em um patamar muito superior aos que acreditavam prever o futuro “lendo” as entranhas dos animais.

No último episódio da segunda temporada "White Christmas" (Natal Branco) uma série de reflexões emergem a partir da tríade: desenvolvimento tecnológico, Estado e punição, onde muito claramente se observa a “dominação metódica, científica, calculada e calculante sobre a natureza e sobre o homem” (Marcuse).

Dois homens aparecem conversando em uma suposta ceia de Natal preparada por um deles. Matt Trent e Joe Potter, interpretados respectivamente pelos atores Jon Hamm e Rafe Spall, estão em uma casa localizada num lugar inóspito e, a princípio, detém algum grau de consciência do porquê de estarem naquele local e do tempo em que ali se encontram: cinco anos.  

Matt inicia uma conversa com teor amigável, enfatizando o clima de confraternização do período natalino. Enquanto prepara o jantar, tenta forçar seu companheiro Joe a falar sobre a sua vida, reiterando a total despretensão moral sobre o passado do colega. Ao que tudo indica estar naquele lugar pressupõe algum tipo de punição. Joe afirma que não tem a prática de ser comunicativo e pede que o próprio Matt inicie a “conversa amigável”, falando de si. Totalmente desinteressado de início, ele vai aos poucos se encantando com o passado do seu companheiro.

Matt começa o diálogo mencionando as duas atividades “profissionais” que desempenhava. A primeira, nas suas palavras um “hobby das horas vagas”, dizia respeito a uma espécie de voyeurista responsável por agenciar relacionamentos. Ele ensinava técnicas de sedução para jovens solteiros interessados em sair com garotas. Na segunda, ele fazia parte da equipe técnica responsável pela programação de “cookies”.

Sua primeira atividade era desenvolvida a partir do contato de jovens do sexo masculino interessados em relacionamentos amorosos. Ele mediava os encontros dando orientações de sedução em tempo real através de uma tecnologia inserida nos olhos de seus clientes chamado Z-Eye. Este aparelho, que se parece muito com o “Grão” do último episódio da primeira temporada, funcionava como sensor biônico, cujo lhe permitia ver e ouvir os diálogos que eram realizados. Não se sabe como e o porquê desta tecnologia ser implantada, mas todas as pessoas possuem esse Z-Eye.

A sua segunda profissão, e a verdadeira como ele bem salientou, está relacionada com uma empresa de clonagem de consciências chamada Smartelligence. Ele fazia parte da equipe técnica de implantação de um microprocessador em cérebros humanos chamado cookie. Este era responsável por extrair um conjunto de dados da consciência dos seus usuários e reconfigurá-los em um processador a parte.

A empresa era procurada por clientes que desejavam ter uma réplica das funções da sua consciência para o desenvolvimento de algumas atividades pessoais semelhantes as que são exercidas por um empregado. Realizava-se um upload do “clone” em um dispositivo, dando-lhe um corpo semelhante ao da pessoa que o extraiu. Neste dispositivo havia um conjunto de funções a “ela” conectadas como: realização de atividades domésticas, programador de eventos, secretário profissional, toda uma gama de trabalhos anteriormente realizados pela pessoa que decidiu se “bipartizar”.

Um crime relacionado com um dos seus clientes do seu primeiro trabalho, fez com que ele recebesse um tipo de punição, cuja faz questão de enfatizar sua correta adequabilidade: “eu fiz coisas nessa vida sobre as quais não me orgulho”. Ele presenciou um homicídio entre um casal de jovens e ocultou o crime, temendo receber algum tipo de sanção legal, uma vez que seu “voyeurismo profissional” era proibido por lei.

Joe está atento a cada palavra, se envolvendo com os casos contados pelo seu companheiro. No meio da conversa Matt o provoca:

- Vamos! Sua vez! Diga: porque é que está aqui? Ninguém entra aqui sem que as coisas não tenham dado erradas lá fora.

Joe permanece resistente a qualquer tipo de confissão. Matt faz questão de dizer que não há mais ninguém naquele lugar a não ser eles dois e reitera a importância dele se abrir para uma conversa. Em cinco anos residindo naquele local, Matt afirma nunca ter o ouvido falar de nada sobre a sua vida pessoal.

Com os lábios trêmulos, Joe inicia a sua triste história dizendo: “Ele nunca gostou de mim! O pai dela nunca gostou de mim!”. Joe fora lançado naquele lugar após cometer um assassinato: ele matou o pai da sua namorada. Seu relacionamento amoroso com Beth, interpretada pela atriz Janet Montgomery, fora marcado por uma série de interrogações que terminaram nesta tragédia.

Após descobrir acidentalmente que a sua namorada estava grávida, Beth reluta com Joe sobre a manutenção da gravidez. Ela, totalmente fechada para qualquer tipo de diálogo, está completamente decidida em abortar a criança e encontra resistência por parte do seu namorado que deseja a todo custo conversar sobre a situação. Beth o “bloqueia”. Esse “bloqueio” consiste em uma das funções da tecnologia Z-Eye e faz com que a pessoa bloqueada se transforme em uma nuvem cinzenta de pixels, sem qualquer tipo de contato com a pessoa que o bloqueou.

Sem qualquer possibilidade de interação, Joe se ver completamente sem ação. Beth sai de casa mantendo o bloqueio, ou seja: continua sem nenhum tipo de comunicação ou interação visual com o seu namorado, deixando-o cercado de dúvidas sobre o futuro daquela gravidez. O bloqueio se estendia da pessoa real a qualquer imagem dela, impossibilitando Joe de vê-la, inclusive, em fotografias.

Ele decide ir até a casa do pai dela Gordon Grey, interpretado pelo ator Ken Drury, e observá-la de longe. Beth tinha o costume de passar o natal com ele. Durante vários anos sempre na véspera de Natal ele se deslocava para lá e os observava a distância. Beth manteve a gravidez, mas em virtude de uma conotação judicial o bloqueio se estendeu a sua filha, impedindo-o de se aproximar delas. Assim, Joe viu a sua filha crescer: à distância, escondido no meio das árvores e observando os borrões acinzentados de pixels resultantes do bloqueio.

Assistindo televisão na poltrona da sua casa Joe toma um susto: uma reportagem de um acidente de trânsito onde uma das vítimas era Beth. Ao conseguir ver a sua imagem sem o bloqueio acinzentado, ele se desespera: os bloqueios acionados pelo Z-Eye são eliminados automaticamente quando a pessoa morre. Apesar da perda, essa era a primeira oportunidade após quatro anos de ver realmente a sua filha. No natal, ele se desloca até a casa do pai da Beth e, pela primeira vez, enxerga a criança sem o bloqueio. Para a sua surpresa a menina tem fenótipos asiáticos, semelhante ao colega de trabalho da sua namorada.

Joe finalmente obtém a resposta da fuga repentina da sua namorada: ele foi traído pelo seu colega de trabalho, resultando em sua gravidez, cuja ela fez tanta questão de interromper. Completamente desnorteado, Joe entra na casa de Gordon que de imediato o informa que destruiu todas as cartas que ele havia enviado para ela. Em um ato de fúria ele agride o pai de Beth que acabara morrendo.

Nessa altura, a casa onde Matt e Joe estão começa a passar por algumas mudanças: coloração, sons, temperatura. Joe percebe a alteração no ambiente, desfocando a atenção da conversa. A distração é percebida pelo seu companheiro que assertivamente o pergunta:

- O que aconteceu depois Joe? Foca no que você está falando. Diga-me: o que aconteceu depois?

Joe, coagido pelas perguntas de Matt, retoma a conversa afirmando que após o ocorrido ele saiu da casa e foi até a cidade mais próxima. Lá ele bebeu bastante e acabou dormindo na rua. Ao ser acordado pela polícia, fora informado do que aconteceu com a filha da Beth naquele dia: ao ver o seu avô desmaiado, ela saiu no meio da nevasca à procura de ajuda.

Nesse momento ele se levanta da cadeira e vai até a janela, lá ele tem a visão do corpo da criança caído no meio da neve próximo a uma árvore. Matt se aproxima dele e pergunta:

- Então você confessa? Você confessa Joe?

Joe começa a chorar, nos fazendo perceber que: ao ver o seu avô morto e tendo saído de casa para buscar ajuda, a criança acabara morrendo congelada perto de uma árvore. Matt continua com a pergunta de uma forma cada vez mais assertiva: “Então você confessa? Você confessa Joe?” Extremamente abalado por toda essa história ele diz: “Eu confesso, eu confesso!”, assumindo a responsabilidade pelas duas mortes: a do pai da Beth e a da criança.

Na sequência, Matt suspira e vibra: “Consegui!”. Sem entender a reação do companheiro, Joe o escuta dizer: “Sinto muito Joe! É o meu trabalho”, sumindo da casa após isso.

Na cena seguinte, Matt aparece tirando a cabaça de uma espécie de caixa de onde aparentemente estava conversando com Joe. O especialista na programação de cookies fora contratado pela polícia para clonar a consciência do acusado pelo assassinato (que realmente aconteceu) a fim de fazê-lo confessar o que ele não havia falado. O Joe “real” está em uma cela trancado, negando qualquer tipo de depoimento. Se há dados em nossa consciência passíveis de replicação, podendo ser encontrados neles características normais da subjetividade humana: vontades, memórias, raciocínio, personalidade, estes passam a ser sujeitos à Lei, gozando de objetividade jurídica. A forma que a justiça encontrou para fazer Joe dar o seu depoimento fora através da clonagem da sua consciência reconfigurada a partir de outro ambiente.

O episódio que encerra a segunda temporada possui um enredo fascinante, nos prendendo na frente das telas do início ao fim. A despeito da ficção criada, claramente observável nas histórias que ocupam o diálogo dos dois personagens, Charlie Brooker (criador da série) levanta uma discussão bastante interessante que liga esse artigo e o do segundo episódio[2] ao clássico “Vigiar e Punir” do filósofo francês Michel Foucault. O livro que faz um levantamento histórico das transformações observadas no sistema penal francês a partir da segunda metade do século XVIII, tece algumas avaliações que, embora questionáveis, não deixam de apontar as mudanças e intenções que estão por trás de todo processo legal de punição.

Trazer um esboço criativo de como esse processo se daria em uma sociedade profundamente marcada pelas compreensões de Herbert Marcuse: “a própria técnica é dominação metódica, científica, calculada e calculante sobre a natureza e sobre o homem” nos provoca mais uma vez à reflexão em torno de qual seja a melhor forma de punir.

Todos os direitos que o sistema penal ocidental, grosso modo, garante a qualquer suspeito de ter cometido um crime foram negligenciados na história de Joe, em nome de uma eficácia legal na conclusão do processo. Qual outro caminho mais eficaz, visando a solução do caso, poderia ser percorrido em uma sociedade que detém este tipo de tecnologia disponível e mediante um suspeito que se recusa a dar qualquer tipo de informação?


[1] (MARCUSE apud HABERMAS). HABERMAS, Jürgen. Técnica e Ciência como ideologia; tradução de Artur Morão – Lisboa: Edições 70, 1968.

[2] “Vigiar e Punir I”: https://opiniaoemersonsilva.blogspot.com/2024/02/black-mirror-e-o-nosso-futuro-distopico_89.html. 



 

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