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Emerson Silva
Pastor congregacional, Teólogo e Doutor em Ciências da Religião.

Black Mirror e o nosso futuro distópico: o desejo não cabe na civilização

 

(Contém spoiler)

A frase “o desejo não cabe na civilização” possui uma tônica freudiana que alude ao adoecimento ontológico da nossa espécie. Somos “cortados” de alto à baixo por uma infinidade de pulsões que nos consomem, inviáveis a todo tipo de relacionamento humano. Tal “fratura” faz da autenticidade uma experiência distante, inviável e perigosa, de tal forma que a sinceridade se torna um obstáculo insuperável frente aquilo que realmente desejamos e os matizes que exigem a boa convivência: mentiras, ilusões, fingimentos e uma gama de sintomas que perfilam como nunca o mundo contemporâneo. 

A expressão: “Mintam, mintam por misericórdia!”, do grande jansenista brasileiro, Nelson Rodrigues (MAGALDI, 1992)[1], traduz bem o sentido da frase, mas especificamente na configuração social que ganha na cultura brasileira dos anos 60 e 70 o substrato da sua dramaturgia: a hipocrisia. Ao lado de grandes mestres da condição humana: Blaise Pascal, Jean de La Fontaine, Jean Baptiste Racine, o escritor e dramaturgo pernambucano soube como ninguém ferir mais uma vez o vaticino à racionalidade que impera sob a cultura humanista, mostrando como a vontade humana “pasta” por debaixo do desejo e como as mentiras podem conferir o mínimo de dignidade aos indivíduos afogados em suas “verdades” desumanas.

Fazendo-nos pensar em possibilidades constrangedoras, o episódio “The Entire History of You” (Toda a sua história) coloca-se sob uma nova perspectiva: e se fosse possível obter o acesso aos nossos desejos pessoais que precisamos esconder no afã de manter o tecido da conveniência externa? E se a publicização destes anseios e das situações vividas a partir deles, fosse uma precondição para ingressar em um determinado tipo de emprego, manter transações comerciais ou usufruir um conjunto de condições mínimas à nossa cidadania? Seria o fim civilização?

O último episódio da primeira temporada de Black Mirror, o único que não tem o jornalista Charlie Brooker como autor, sendo escrito por Jesse Armstrong e dirigido por Brian Welsh, tem como protagonista o personagem Liam, interpretado pelo ator Toby Kebbell (que atuou como "Messala" no clássico "Ben-Hur"). A trama levanta a discussão em torno dos nossos segredos pessoais a partir de um novo tipo de sociabilidade criada pelo “Grão”.

O Grão é um pequeno dispositivo instalado em baixo da orelha que possibilita o seu usuário a rever um número infindável de memórias a partir de uma janela virtual que se abre no globo ocular[2]. Todo e qualquer tipo de experiência vivida é armazenada, desde a mais remota infância até uma reunião de trabalho realizada algumas horas atrás, podendo ser acessada e, inclusive, reproduzida em uma tela exterior.

Esse processo de acesso pessoal e reprodução externa é chamado de “re-do”. Os personagens interagem uns com outros a partir deste acesso e reprodução, compartilhando seus registros em conversas informais, entrevistas de emprego ou expondo-os como pré-requisito para algumas atividades: entrada em instituições privadas, por exemplo.

O episódio se inicia com Liam após sua entrevista de emprego. A empresa de advocacia lhe comunica sobre o desinteresse imediato da sua contratação, em virtude da nova “causa”, cuja organização está interessada: “Litígio em parentalidade retrospectiva”. Com poucas expectativas profissionais, ele volta a sua cidade e se reúne em um encontro com a sua esposa e um grupo de amigos.

No jantar, a personagem Halam não possui o grão. Algo que gera certa perplexidade nos que estão ali presentes. Uma das suas amigas profere contra ela um discurso de repreensão sobre sua condição de vulnerabilidade por deter apenas a sua “memória orgânica”, suscetível às induções por parte dos terapeutas às teorias sem sentido da psicanálise:

“Com metade da população você pode implantar memórias falsas, só fazendo perguntas preparadas na terapia. Você pode fazer as pessoas se lembrarem de terem ficado perdidas em shoppings que nunca visitaram, de serem perturbadas por babás pedófilas que nunca tiveram.”

Ao chegar em casa, Liam comenta com sua esposa (Ffion) sobre as trocas de olhares e sorrisos percebidos entre ela e Jonas (um amigo que estava no encontro). A partir daqui o grão ganhará uma posição fundamental na trama. Liam passa a rastrear em suas memórias e reproduzir as cenas observadas na reunião de amigos, comentando cada mínimo detalhe com a sua esposa. Olhares, sorrisos, franzidos de testas, os gracejos, articulando através de todos esses dados à hipótese de ter sido traído.

A empreitada de Liam se tornou uma investigação policial. Ele se lança de forma obsessiva na busca das suas memórias e das memórias da sua esposa analisando cada mínimo detalhe que possa indicar uma traição: imagens, horários, ambientes frequentados, cores de roupas. Após obter vários dados, ele consegue arrancar algumas confissões: “Eu tive um caso com ele há muitos anos atrás”, “foi apenas uma semana”, “foi apenas um mês”, “foram apenas seis meses”.

Cada rastreamento possibilitado pelo grão acrescentava novas informações à busca do personagem. Até que, a partir de um descuido de Jonas na reprodução das suas memórias, Liam descobre toda a verdade: ele estava sendo traído por longos anos e desconfia, inclusive, que o filho que eles tiveram não seja dele. Nada que a sua esposa diga faz mais sentido, levando-o agora a rever suas memórias do momento exato da traição e observar se a relação sexual fora realizada com algum tipo de método contraceptivo. A ausência da “verdade” que mantinha a boa convivência daquela família ruiu a partir da tecnologia “re-do” possibilitada pelo grão.

Todo o transtorno que aquele jovem advogado fora submetido, com uma carreira brilhante e com uma família feliz, poderia ter sido evitado se um pequeno quantitativo de mentiras fosse preservado. Porque afinal de contas, eles possuíam os contratos protocolares de um bom relacionamento: eram bem sucedidos financeiramente, se gostavam, haviam formado uma família e, o simples término do desejo que ambos ocultamente expressavam um pelo outro (como fica claro quando eles se relacionam sexualmente olhando cenas a partir do seu grão de relações que tiveram com outros parceiros), e fez com Ffion buscasse um companheiro sexual externo a relação, não poderia ser superior a tudo aquilo que os dois construíram juntos.

O episódio termina ecoando o teatro Rodriguiano: Liam arranca o seu grão sob a convicção de que a verdade é insuportável. É mais do que provado que não conseguimos suportar altas doses de realidade. Que a vida em sua total transparência é irrespirável e que as mentiras não são todas “iguais”, pois algumas nascem do cuidado que temos uns pelos outros.

Isto é boa parte do que somos: as coisas que propomos com nossos discursos são destruídas pelos nossos próprios atos. Nossos desejos não cabem inteiramente na civilização. Precisamos das religiões, do consultório, da lei e de tudo aquilo que visa “racionalizá-lo”. O espírito da “Vida como ela é”, que retratou casos de adultério, hipocrisia, incesto, ganância e tantos outros anseios que ressoam na afirmação do escritor brasileiro: “O dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro. E se for para sofrer que seja em Paris” (Nelson Rodrigues), nos cerca por dentro. Talvez os algoritmos de rastreamento do Google presentes em nossos smartphones (por não ocultarem o que realmente desejamos, uma vez que não mentimos para os buscadores) registrem a sinceridade que nos falta, quando tão apressada e “virtuosamente” discordamos das sentenças Rodriguianas.    



[1] MAGALDI, Sábato. Nelson Rodrigues: dramaturgia e encenações. São Paulo: Editora Perspectiva, 1992.

[2] A propaganda do grão no episódio: “Viva, respire e cheire. Memória de largo espectro. Faça uma atualização do seu grão pagando menos que um valor de uma xícara de café com três décadas de backup gratuito. O implante é feito com anestesia local e você está pronto para sair. Por que a memória é para ser vivida”.

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