Homens sem sombras
O império da vulgaridade intelectual amassa este país. Nós que já possuímos edifícios culturais gigantescos, nos perdemos em nome de novidades que nos levam à sepultura!
"Homens sem sombras"! Com certeza uma das melhores metáforas utilizadas pelo filósofo espanhol Ortega Y Gasset, para identificar o espírito humano do nosso tempo. A sombra é sempre um reflexo contextualizado. É necessário que uma realidade a ser refletida esteja circunstanciada a um meio que receberá este reflexo. São os homens e suas circunstâncias históricas que tornam possíveis os mais variados reflexos da humanidade. Sem a existência humana e sem as mais celebradas realidades históricas que de algum modo as circunscrevem, não há reflexos, não há marcas, não há nenhum tipo de "índice" pelo qual os humanos podem se demonstrar humanos aos que virão após eles.
O fenômeno do "homem massa", "homem médio", ou "homem vulgar" não é um fenômeno histórico restrito. Com isto, afirmo que não é exclusivamente o homem moderno está desqualificado, embora Gasset nele se concentre. O fenômeno do homem massa está ligado, sobretudo ao espírito humano. É a mancha do pecado adâmico que faz com que este se alimente de um auto justificação pueril, absurdamente exponenciada com a idade moderna.
De início, Ortega Y Gasset tolhe toda e qualquer interpretação ingenuamente política que se possa fazer da sua obra magna:
"Uma preocupação de Ortega se encontra em outro motor. A sociedade nada mais é do que uma exteriorização dos seus cidadãos. Logo, o caminho percorrido pelo filósofo tem pontos de partida e chegada bem mais precisos: o homem atual . "Para falar mais sério e profundamente sobre ele, não haveria outro remédio a não ser se coloca rumo ao abismo, vestir o escafandro e descer ao mais profundo do homem. Isso tem de ser feito sem pretensões, mas com decisão [...]". (GASSET, 2016, p.63)".
É esta "antropo-interpretação" que demarcará toda a sua obra. O humano em Ortega Y Gasset é um ser bastante preciso, com as devidas incumbências necessárias para seu desenvolvimento intelectual e moral. Com as aglomerações urbanas que eclodiram mediante o processo de modernização das cidades, as grandes "massas", um gigantesco número de pessoas aglutinadas em torno de princípios e ideais comuns, passam a figurar na opinião pública, engolindo este "homem", cujo destino aguarda excelência: "A multidão, de repente, fez-se visível: instalou-se nos lugares preferenciais da sociedade. Antes, se existia, passava inadvertida, ocupava o fundo do cenário social; agora avança às baterias, e é personagem principal. Já não há protagonistas: só coro" (GASSET, 2016, p.80 ).
Estas massas: "suplantam as minorias". "Massas" e "minorias" são termos constantes na obra de Ortega. Este entende que a qualificação individual para o exercício público de formação de ideias, administração estatal, desenvolvimento artístico, é na maioria das vezes efetivada por uma quantidade mínima de pessoas, cujas se dispõe a um extenso processo de qualificação. As massas por sua vez, são desqualificadas. Ideologizadas em torno de compreensões provenientes dos mais diversos tipos de senso comum. Coletividades desprovidas de virtudes: "[...] a coletividade é uma realidade distinta dos indivíduos e de sua simples soma […]" (p.56). Gasset informa que o espírito cultural do nosso tempo é composto por esta desqualificação presente do "homem massa".
É importante que se entenda bem a proposta deste ensaísta que em nenhum momento confere indignidade humana a quem quer que seja, qualificado ou não. A preocupação de Ortega versa sobre a qualificação necessária do homem público, que na emissão de suas opiniões se integra ao processo civilizacional.
O homem massa não é característico de uma classe social, mas sim a consequência de um espírito desqualificado, residente, único e exclusivamente em si mesmo: "A divisão da sociedade em massas e minorias excelentes não é, portanto, uma divisão em classes sociais, mas em classes de homens, e não pode coincidir com a hierarquização em classes superiores e inferiores" (GASSET, 2016, p.82). Este homem vulgar não possui a mínima capacidade possível de ausentar-se do seu "ventre".
Característico ao homem massa está à maneira com que julgou a sua época: sempre melhor e mais excelente do que todas as outras anteriores. Ortega teme um "tempo de ouro", "uma era 'epocal'", ou seja, toda e qualquer auto-referenciação histórica de caráter superior aos momentos anteriores, algo muito observado em seus dias.
Todo tempo que se julga pleno demais, acaba por se estagnar. E aqui, a consciência histórica formulada é justamente a que produz o homem massa, pois este é pleno em suas convicções julgando nada depender do passado. Um tempo, ou uma cultura que se autodenomina "moderna", ou seja, "última", "definitiva", não se pode esperar que progrida, mas que tão apenas se confina em suas "grandes" engenharias, enclausurada em si mesma.
A cultura brasileira, nos últimos trinta anos, se converteu no melhor reflexo possível deste homem médio. É impressionante como a maioria esmagadora dos artistas que hoje representam as grandes massas, não apenas deixaram de referenciar, mas como também desconhecem as grandes produções culturais que os antecederam. E não apenas estes, mas, numa considerada vertigem para a nossa esperança, uma maioria ainda mais esmagadora de jovens que consomem sua cultura. É esta quebra com um passado relevante, que é apontado por Ortega como o grande abismo que a cultura despencou: "Isso quer dizer que o homem do presente sente que sua vida é mais vida que todas as antigas, e vice-versa, que o passado inteiro ficou pequeno para a humanidade atual" (GASSET, 2016, p.105).
Somos os únicos seres de "memória" pertencentes ao mundo da vida. É dela que brota a consciência histórica responsável por alimentar os mais diversos setores de funcionamento da civilização.
Para o nosso filósofo, "massificar-se" é submergir no conglomerado de opiniões persuasivas e ideologicamente orientadas, onde as grandes massas se auto escravizam. É se persuadir de enganos em uma auto-referenciação pueril, e não conseguir identificar as sombras humanas do passado. Um autoengano que o faz se perceber como detentor de uma superioridade histórica. O ser humano atual: "Domina todas as coisas, mas não é dono de si mesmo" (GASSET, 2016, p.113), "possui vários talentos, menos o de usar-los" (GASSET, 2016, p.114).
O homem do nosso tempo ovaciona a própria prisão da consciência, em hermetismos e ideologias que constituem a própria cadeia por eles mesmos construída. Xingando ao homem excelente, pela acuidade e cautela com que olha para o passado e o futuro, falam de dentro da prisão, achincalhando os que estão "presos do lado de fora" pela fidelidade como suas tradições. O homem massa é o homem que despreza o passado que lhe permite o conforto para a disseminação de suas idiossincrasias. Este goza das técnicas e benefícios ancorados em compreensões e convicções de mundo que este negligenciou por sua "antiguidade".
É certo que nós do Novo Mundo podemos estabelecer certas fronteiras quanto às inscrições de Ortega. Sabe-se que uma compreensão pós-colonial para a nossa civilização requer uma abertura ao futuro e uma mudança significativa com o passado. No entanto, abrir-se ao futuro, no afã de pensar o formato da nossa sociedade para além dos moldes europeus, não implica que sejamos governados por circunstâncias inesperadas, e sob esta perspectiva, justifiquemos toda uma falta de criticidade frente a nossa história, abrindo mão de ponderações e decisões que independente de qualquer novidade almejada precisam ser feitas e tomadas. Pensar a América Latina fechando-se em si mesmo, nos dará uma prospecção civilizacional muito efêmera. Somos muito mais do que uma simples crítica ao mundo europeu.
O império da vulgaridade intelectual amassa este país. Nós que já possuímos edifícios culturais gigantescos, nos perdemos em nome de novidades que nos levam à sepultura. Até o nosso bom humor, característico da forma extrovertida com que enxergamos a vida, desabou em "caretas", "gemidos" e "acrobacias".
Sob a imunidade de nosso velho poeta armorialista: "Cultura popular, não é cultura de massas" (Ariano Suassuna), os aspectos mais significativos do espírito humano escapam aos homens de cultura da nossa época que insistem em dignificar seu declínio, tão somente pelo fato de ser seu. Enquanto audaciosamente insistirem que: "Lepo-lepo, é um grito contra o capitalismo", mais intensamente mergulharemos na sentença de Platão:
"Dizem que, nessas circunstâncias, o justo será vergastado, torturado e amarrado; queimar-lhe-ão os olhos e, por último, depois de passar por todos esses tormentos, será empalado, para compreender, facilmente, que o que importa não é ser, porém parecer justo". Platão, A república, 362a.



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