O método filosófico em Ortega Y Gasset: breves notas sobre o livro "Origem e Epílogo da Filosofia"
"[…] de facto, cada um de nós pára, se detém ou deixa de pensar em determinado ponto da série dialética. Uns param antes, outros param depois. Mas isto não quer dizer que não teríamos de seguir pensando. Ainda que nos detenhamos, a série dialética continua e sobre nós pesa a necessidade de aceitá-la. Mas outros afazeres da vida, enfermidade, ou simplesmente os diferentes graus de capacidade para percorrer sem extravio e sem vertigem uma longa cadeia de pensamentos, são causas de que interrompemos violentamente a série dialética. Cortamos a série e ela continua sangrando dentro de nós (GASSET, 2018, p.19)”.
INTRODUÇÃO
De uma escrita audaciosa e de grande riqueza estética, (responsável, inclusive por muitos não o categorizar como filósofo, mas sim como um pretensioso "jornalista" ou um literato "debochado"…) Ortega Y Gasset é um dos grandes nomes do ensaio filosófico do século XX. Sem filiações intelectuais exacerbadas ou, qualquer outro tipo de aderência ideológica típica dos "establishment" de sua época, sua originalidade sobressai em grande medida nas suas compreensões filosóficas. Distanciando-se de reflexões "abstratas", é apontado como aqueles intelectuais que movem sua crítica no solo da consciência dos seus leitores.
Para o filósofo inglês Roger Scruton, fora um dos mais importantes nomes do conservadorismo cultural na Espanha[1]. De ideias provocadoras, elaborou importantes compreensões das sociedades ocidentais no período do pós-guerra, sendo para o escritor peruano Mario Vargas Llosa "[...] um dos mais inteligentes e elegantes filósofos liberais do pós século XX"[2].
Nascido na Espanha, e de um olhar acurado para a filosofia de Edmund Husserl, tem como um dos principais indicadores do seu pensamento aquilo que denominou de razão histórica. Esta, consistindo na capacidade de reflexão circunstancial do filósofo a partir de determinado contexto histórico-cultural. É o exercício reflexivo que toma por base a sua vida enquanto tal, dentro de um conjunto de circunscrições espaço-temporais. Reflexão esta, capaz de compreender estruturalmente o objeto filosófico: "Todo conceito com pretensões de representar alguma realidade humana leva inclusa uma data" (ORTEGA Y GASSET, 1994, p. 540). Para Ortega, existe uma condicionalidade histórica inalienável na existência humana.
De uma obra vasta, fora ensaísta, filósofo, crítico cultural, educador, político e editor do influente jornal espanhol Reviste de Occidente. Em Origem e Epílogo da Filosofia, toma algumas notas sobre o livro História da Filosofia de Julián Marías[3], oferecendo um epílogo a presente obra. O presente texto, não consiste em uma resenha ou recensão crítica sobre o livro, mas em um breve apanhado destas notas, aponta alguns dos horizontes mais importantes a serem observados no que concerne a um "método" possível da filosofia orteguiana, sobretudo no que se refere ao tema da dialética no pensamento filosófico.
A DIALÉTICA DO PENSAMENTO
Ortega nos remete ao que denomina de passado filosófico, apresentando quatro momentos distintos do exercício reflexivo elementar da filosofia: a dialética. Nesta retomada, é possível encontrar um dos motes que acentuam o sentido do conceito de "tradição", bastante presente em seus textos[4]. O legado deixado pelos filósofos que veio antes dele não é extático, sendo-lhe de igual modo que o futuro, uma fonte de expectativas, que se encontra no momento presente em que o homem excelente[5] dele toma consciência.
“O passado confina com o futuro porque o presente, que idealmente os separa, é uma linha tão sutil que serve apenas para juntá-los e articulá-los. Pelo menos no que diz respeito ao homem, o presente é uma taça de cristal finíssimo cheia até a borda de emoções e expectativas. Quase, quase poderia afirmar que o presente é mero pretexto para que haja um passado e um futuro, o lugar onde ambos logram ser o que são: passado e futuro (GASSET, 2018, p.15)”.
Tal entusiasmo relatado à tradição filosófica leva a série dialética por ele definida em que, sobre este passado, serão compreendidos como quatro operações metódicas necessárias a qualquer pensamento filosófico contemporâneo que almeje alguma vigência.
Estas operações consistem em: a) compreender a história da filosofia como uma miscelânea de opiniões diferentes, muitas das vezes contraditórias, refletidas sobre o mesmo objeto. Aqui, cada nova filosofia que surgia, apontava o erro da sua anterior, advogando em torno de si mesma a sua superioridade[6]; b) os erros dos sistemas filosóficos anteriores tornam-se instrumentos para a verificação da superioridade dos novos sistemas; c) Os erros encontrados nas doutrinas acima devem ser compreendidos enquanto aspectos insuficientes da verdade filosófica produzidos pelas experiências intelectuais limitadas de cada filósofo, e não como atender às exigências controversas. Nas palavras do autor: "No final das contas, fica claro que não se estava diante de um erro por ele não ser verdade, mas sim, por ser verdade insuficiente" (GASSET, 2018, p.30) e mais: "Neste terceiro aspecto o passado filosófico se nos revela como uma melodia ingente de experiências intelectuais pelas quais o homem passou" (p.32). E por último, temos no quarto momento da série a necessidade do pensar filosófico atual absorver toda a tradição filosófica de tal forma que: "[…] a doutrina de antes continua sendo 'por ora' verdade — entenda-se: uma verdade pela qual sempre se deve passar no itinerário mental em direção a outra mais plena. E esta a que se chega é mais plena, porque inclui, absorve aquela" (p.33).
A dialética filosófica consiste em trilhar todo arsenal doutrinário já estabelecido, absorvendo-o, e erigindo novas elucidações ao objeto primaz da filosofia, sob o edifício de observações já construídas. Para Ortega, a plenitude de tal empreendimento, consiste na aurora da razão histórica.
Ao tratar sobre "Os aspectos e a coisa inteira", um pequeno capítulo que sintetiza a totalidade compreensiva, cuja filosofia vem se debatendo há séculos, é discutido uma das teses centrais do seu trabalho: "Para mim, esta premeditada experiência é desde sempre inesquecível – o que Goethe chamava de 'protofenômeno' – e ela devo, literalmente, toda uma dimensão da minha doutrina: que a coisa é o mestre do homem" (GASSET, 2018, p.49).
Ortega nos apresenta como "a coisa inteira" e os seus "aspectos" figuram na reflexão filosófica. Os diversos tipos de percepção que se pode obter, a partir dos aspectos da "coisa", serão sempre aspectos. Embora nunca desassociados da coisa em si, sempre serão compreensões fatiadas, impossíveis de nos levar a totalidade residente por detrás do fenômeno.
Estes aspectos são também "olhares" humanos, indissociáveis de uma leitura subjetiva, mais especificamente, de uma tomada de perspectiva a partir de uma "Sitz Laben" (situação vivencial): "O que penso como real, uma pedra ou uma árvore, não se forma independente de mim […] É o meu viver que oportuniza que a pedra e a árvore sejam tais como representação" (ORTEGA Y GASSET, 1998, p. 64 – tradução nossa)[7]. Esta tríade tão complexa quanto sedutora (a coisa – seus aspectos – a subjetividade) pode ser sintetizada nas seguintes palavras:
“[...] o "aspecto" da coisa é inseparável daquele que o vê. Mas, deixe-me insistir: como, ao fim e ao cabo, é sempre a coisa que se manifesta em algum dos seus aspectos a algum ponto de vista, eles lhe pertencem e não são "subjetivos". Por outro lado, dado que são apenas resposta à pergunta que cada olhar faz, apenas resposta a uma verificação determinada, não são a mesma coisa, se não somente seus "aspectos". Usando de um modismo bastante vernacular, diríamos que o "aspecto" é a "cara que a realidade nos mostra". É ela que mostra, mas é a nós que mostramos. Se fosse possível integrar os incontáveis "aspectos" de uma coisa, teríamos a ela mesma, porque a coisa é a "coisa inteira". (ORTEGA Y GASSET, 2018, p.52 – grifo meu)”.
Em termos gerais, é a "presença da coisa diante do homem" o território primeiro para a atitude filosófica[8]. A partir desta presença, há uma mudança entre os aspectos da coisa — a coisa — e como ideias humanas, ideias estas, capazes de, em alguma medida, compreender verdades que lhe são desenvolvidas na investigação. O método para corrigir o discernimento das realidades que perpassam essa tríade é semelhante à estrutura dialética que se é compreendida pelo filósofo frente ao seu passado filosófico:
“1º: Parar diante de cada aspecto e tomar dele uma vista. 2º: Seguir pensando ou passar a outro aspecto contíguo. 3º: Não abandone ou conserve os aspectos já 'vistos', mantendo-os presentes. 4º: Integrá-los em vista suficientemente 'total' do tema de que nos ocupamos em cada caso (GASSET, 2018, p.62)”.
Ao discutir o papel da linguagem nesta trajetória, acentua-se a importância com que ela nos apresenta as realidades da nossa investigação, neste caso os "aspectos da coisa inteira". A palavra consiste em uma das "primeiras moradas" da percepção desses aspectos. Ao referir-se ao passado filosófico, é o primeiro contato que temos com ele: "O passado nos chega por meio dos nomes e dizeres que ouvimos a respeito dele — tradição, conselho, mito, narração e história: dizer, mero dizer" (GASSET, 2018, p.76). No entanto, a presença da "palavra" indica também uma limitação quanto ao nosso objeto filosófico:
“Porque o que temos da coisa, ao ter o seu nome, é uma caricatura: seu conceito. E, se não tomarmos cuidado, se não desconfiarmos das palavras, procurando olhar por trás delas, para as coisas mesmas, os nomes se transformam em máscaras que, ao invés de fazer-nos presente a coisa, de algum modo, ocultam-na (GASSET, 2018, p.79)”.
O autor de uma considerável atenção que denominamos "criadores" da filosofia: Parmênides e Heráclito. Ao tratar de cada um pretende mostrar os horizontes filosóficos presentes nas suas doutrinas e, como, até nos gêneros textuais que escolheram para escrever, eles podem manifestar suas principais compreensões do objeto filosófico.
Sobre Parmênides, afirma: "Parmênides sente que o que se passou com ele em sua descoberta é como um acontecimento — em algum sentido — transcendente, e isto o leva naturalmente a empregar um inspirador e uma imagética religiosa para expressar a uma só vez sua ideia e sua emoção" (GASSET, 2018, p.119–20). Quanto Heráclito, ressalta seu ar de superioridade com que tratou dos autores existentes antes dele: "O estilo de Heráclito consiste, pois, em falar desde sua individualíssima pessoa na forma de sentenças fulminantes, tais como as que podem surgir em qualquer conversa aguda, ' faiscante' e elétrica" (GASSET, 2018, p.124).
Em síntese, os dois tratam o passado filosófico como um dado valor negativo, evocando a experiência filosófica por eles compreendida, como a luz que figura sobre a escuridão anterior. Outra nota importante tomada a partir de Parmênides e Heráclito é sobre os "dois mundos da filosofia". Estes podem estar relacionados um com o outro ou não. A atividade filosófica se debruçará sobre o mundo cotidiano, "dissecando-o", ou "duplicando-o", nos apresentando: "um mundo patente e um trasnmundo ou supermundo que está latente sob aquele; e, além disso, nos manifestam também em qual deles residem à culminação da tarefa filosófica" (GASSET, 2018, p.94).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Passado filosófico, dialética e linguagem perfazem o mapa conceitual indispensável para a filosofia de Ortega Y Gasset. O funcionamento destes termos, em suas proposições aponta para a emergência de um binômio, pouco explorado neste texto, mas elementar em seu exercício reflexivo: a razão vital e razão histórica. Este pode coadunar boa parte das compreensões aqui dispostas: a pertinência da perspectiva humana na construção do conhecimento e as circunstâncias históricas que representam o "subsolo" das indagações filosóficas.
REFERÊNCIAS
LAVELLE, Louis. A Presença Total: e Ensaios Reunidos; tradução de Carlos Nougué. — São Paulo: É Realizações, 2015.
LLOSA, Mário Vargas. O chamado da tribo: grandes pensadores para o nosso tempo; tradução de Paulina Watcht e Ari Roitman. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.
MARIAS, Julián. História da Filosofia. Prólogo de Xavier Zubiri. Epílogo de José Ortega y Gasset. Tradução Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
ORTEGA Y GASSET, José. Aponta sobre o pensamento, sua teurgia e sua demiurgia. Obras Completas. 2ª reimpresión, v. IV. Madri: Alianza, 1994.
ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das massas; tradução de Felipe Denardi – Campinas, SP: Vide Editorial, 2016.
ORTEGA Y GASSET, José. Origem e epílogo da filosofia; tradução de Fernando Ferreira Júnior. Campinas, SP: Vídeo Editorial, 2018.
ORTEGA Y GASSET, José. Verdad y Perspectiva (El Espectador). In: Obras Completas. Volume II, 3ª edição. Madri: Aliança, 1998.
SCRUTON, Roger. Conservadorismo: um convite a grande tradição; tradução de Alessandra Bonrruquer. Rio de Janeiro: Registro, 2019.
[1] "Por um breve período, Ortega foi membro do Parlamento durante o governo republicano, mas deixou a Espanha no início da guerra civil. Seus textos anteriores a esse período foram baseados no profundo amor e respeito pela cultura nacional espanhola. O modo estabelecer de vida, sob proteção da igreja católica, mas com pleno reconhecimento das realidades materiais de uma economia campesina, trouxe consigo certas virtudes que marcaram o caráter espanhol e que sempre seriam necessárias para que o país existisse como república independente (SCRUTON, 2019, p.108)".
[2] "José Ortega y Gasset foi um dos mais inteligentes e elegantes filósofos liberais do século XX, a quem diversas circunstâncias – a Guerra Civil Espanhola, os quarenta anos de ditadura franquista e o auge das doutrinas marxistas e revolucionárias na segunda metade do século XX, na Europa e na América Latina – levou à injustiça do esquecimento […]" (LLOSA, 2019, p.48).
[3] MARIAS, Julián. História da Filosofia. Prólogo de Xavier Zubiri. Epílogo de José Ortega y Gasset. Tradução Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
[4] "Essa grave dissociação entre o passado e o presente é o fato geral da nossa época, e nela está inclusa a suspeita, mais ou menos confusa, que gera uma vertigem peculiar da vida nesses anos. Sentimos os homens atuais, que derrepente ficar sós sobre a terra; que os mortos não morreram só de brincadeira, mais completamente; que já não podem nos ajudar. O resto do espírito tradicional evaporou. Os modelos, as normas, as pautas, não nos servem. Temos que resolver nossos problemas sem a colaboração ativa do passado, em pleno atualismo — sejam eles de arte, de ciência ou política. O europeu está só, sem mortos vivendo ao seu lado; como Pedro Schlemihl, que perdeu sua sombra […]" (GASSET, 2016, p.105–06).
[5] Em seu livro “A Rebelião das Massas”, este termo é bastante explorado e contrastado com muitos outros: "homem massa", "homem vulgar". Em síntese, o homem excelente consiste naquele que toma consciência e se empenha no seu desenvolvimento intelectual e moral. Com as aglomerações urbanas que eclodiram mediante o processo de modernização das cidades, as grandes "massas", um gigantesco número de pessoas aglutinadas em torno de princípios e ideais comuns, passam a figurar na opinião pública, engolindo este "homem", cujo destino intelectual aguarde excelência.
[6] Atitude que Ortega exemplifica com um trecho do sermão do Pe. Jacques-Bénigne Bossuet: "Quando considero esse mar turbulento, se assim me é permitido chamar a opinião e os argumentos humanos, não me é impossível encontrar, em tão grande espaço, abrigo tão seguro ou retiro tão sossegado que não tenha se tornado notável pelo naufrágio de algum navegante famoso".
[7] "Lo que consideramos real, uma pedra ou uma árvore, não se forma independentemente de mim [...] Es mi vida lo que hace possível que la piedra y el árbol sejam uma representação".
[8] Constatar isto sem mencionar um dos autores mais fascinantes que, desenvolveram um extenso trabalho intelectual nos mais diversos campos filosóficos (ética, metafísica, epistemologia) a partir deste território que abriga "sujeito" e "objeto", desprestigiaria todo o meu artigo. Refiro-me ao filósofo francês Louis Lavelle, e aponto uma obra que resume uma parte significativa da sua vasta compreensão a partir desta "presença" do "objeto" ante o "sujeito" e vice e versa: A presença total (2015).



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