Pastores que precisam de pastores: os perigos que cercam o cuidado com o outro
"Os perigos que cercam o cuidado com o outro"
"Sempre amei cuidar de pessoas, dar conselhos, dar aulas de música, mas, quando assumi, percebi que não era só isso. Toda a responsabilidade estava sobre mim. Havia uma dívida de IPTU de seis mil reais... A igreja não era legalizada, o prédio não era próprio. A cobrança das pessoas para que eu resolvesse tudo: as crises nas famílias que eu era chamado para atender, políticos que nos viviam procurando para formar alianças... Traições, ingratidão, minha esposa me cobrando, minha filha ficou doente... Meu Deus: entrei em crise! Às vezes ia chorando para a igreja. Os escândalos de pastores famosos que fazem com que as pessoas achem que somos iguais a eles. Não conseguia dormir; queria ficar sozinho o tempo todo. Fiquei dois anos desempregado, não tinha disposição para sair de casa... foi horrível. Cheguei a pedir a morte". (Tiago, 47 anos, pastor da Assembleia de Deus).
"[...] deparamo-nos com pessoas transitando entre a fé e seus caprichos pessoais. Acreditam em Deus, seguem Jesus, quando estão em necessidades imediatas; e na mesma proporção, afastam-se dele quando parece estar tudo bem, ou quando não são contemplados em seus interesses. Dessa maneira, isso causa uma sobrecarga de frustração no líder, que se vê na maioria das vezes fracassado por não haver podido fazer mais, como aquela pessoa queria". (João, 64 anos, há 18 anos como pastor evangélico).
"A realidade é difícil, porque ninguém nos contou que 'não poderíamos ser amigos' de nossas ovelhas, teríamos que ser mentores, manter a distância da segurança e respeito e, com isto, a nossa carência muitas vezes nos levou a decepções profundas". (Pastora Débora, 45 anos, há nove anos pastora).
CAMPOS, Luciana. A dor invisível dos presbíteros. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.
Os relatos acima foram coletados pela psicóloga Luciana Campos e registrados em seu livro: A dor invisível dos presbíteros. Luciana trabalha no Seminário São José de Niterói, e por longos anos atende padres, pastores, seminaristas, leigos religiosos e diversos líderes vinculados a religião cristã que demonstram adoecimento físico e mental pelas atividades exercidas provenientes de suas vocações religiosas.
A desistência do ministério, adoecimento e nos casos mais graves, suicídios, são alguns dos resultados observados não só entre os líderes religiosos, mas também em suas esposas(os), filhos e familiares. Esses ministros, que durante seus períodos de formação foram constantemente alertados sobre a necessidade de darem suas vidas pela igreja, perceberam-se incapazes e frustrados, havendo suas vidas seguido um rumo nunca antes por eles imaginado.
É mais do que necessário entender que a expressão utilizada pelo Apóstolo João para os pastores das igrejas da Ásia Menor é metafórica. Ou seja, não somos os "Anjos da igreja" por determos uma natureza espiritual muito elevada ou por sermos mais próximos de Deus e por isso, ausentes de problemas. Somos como todos os homens da bíblia: filhos do nosso tempo e "sujeito as mesmas paixões", logo: necessitados dos mesmos "reparos".
Nos anos de 2016 e 2017, a mídia noticiou o caso de seis líderes religiosos (três padres e três pastores) que cometeram suicídio, algo que levou centros de formação pastoral espalhados por todo Brasil a promoverem grupos de estudos e palestras relacionadas ao assunto. De uma importância fundamental, "A dor invisível dos presbíteros" traz aos leitores informações imprescindíveis, oportunas a todos aqueles que de alguma forma estão envolvidos com a vida religiosa. O estudo é dividido em três pastes com alguns materiais em anexo, visando auxiliar o líder religioso a compreender importantes aspectos de sua saúde física e mental muitas vezes tão negligenciadas durante suas atividades diárias.
OS PERIGOS DO CUIDADO COM O OUTRO
De início, a autora traça um breve mapeamento quanto a determinadas variáveis psicológicas presentes em todos os vocacionados à vida religiosa, neste caso padres e pastores especificamente. Luciana constata que todas as dez pessoas analisadas relacionam de alguma forma sua vocação com noções muito presentes tanto na vida militar, assim como nas atividades profissionais que desenvolvem um determinado tipo de cuidado com o outro (psicólogos, assistentes sociais, cuidadores, etc). Estas noções são basicamente a de "disciplina" e "alteridade".
É importante observar que "disciplina" e "alteridade", embora sejam virtudes a serem observadas, podem se converter em mecanismos autodestrutivos. Submeter sua vida a intensos exercícios de abnegação, assim como a falta de atenção com tudo aquilo que é propriamente humano, que por pior que seja faz parte da vida de todos os indivíduos, leva a consequências muitas vezes irreparáveis.
Todos os seres humanos, vocacionados ou não, são pessoas detentoras de desejos, falibilidade, medos, superficialidades, e tantas outras coisas "profanas" que integram de forma indissociável os contornos da nossa personalidade. A autora não se mostra contrária as devidas obrigações morais necessárias para a vida de um líder eclesial, no entanto, nos alerta quanto a um fato absurdo que é comumente observado: onde a vida eclesiástica é vivenciada em detrimento da vida humana.
Em seu segundo capítulo, Luciana trabalha as questões envolvendo a Síndrome de Burnout, um adoecimento psíquico e emocional proveniente de condições de trabalho físicas e psicologicamente desgastantes. Por mais que a vida pastoral se alimente de realidades doadoras de sentido, ela não está imune a síndrome que tem levado muitos pastores e padres a romper com o ministério.
Dentre tantas causas referentes a este adoecimento está a discrepância vivida entre a idealização da vocação e a realidade institucional apresentada. Os valores aprendidos pelos candidatos durante a formação teológica se apresentam em descompasso com a realidade das igrejas, muitas das vezes submersas em hierarquias e burocracias totalmente esvaziadas de qualquer intenção cristã genuína. Tais causas possuem duas avassaladoras implicações: internamente, referente à subjetividade afetada, e externamente, dada a sua condição de líder. Pedro, ex-pastor evangélico relata:
"Eu queria colocar uma bermuda e ir á padaria, mas tinha receio de encontras pessoas. Tinha medo do que iam pensar. Segunda é dia de todo mundo começar a trabalhar e eu estaria ali, de bermuda. Iam dizer que eu não trabalho. Ali o pastor, sem fazer nada, e de bermuda! Iriam dizer" (p.45).
SOMENTE O NECESSÁRIO...
"Somente o necessário (Mogli, o menino lobo) é muito bom, e o extraordinário (que é demais) também pode vir, mas não quero deixar de apreciar as flores das calçadas" (p.52).
A frase de Pedro abre o último capítulo da obra que dá algumas orientações quanto à prevenção e o acompanhamento de líderes afetados, ou prestes a adquirir a Síndrome de Burnout.
O cuidado e a prevenção são semelhantes aos realizados com qualquer pessoa que tenham sintomas de depressão: alimentação saudável, exercícios físicos, a busca de um profissional especializado (psicólogos, terapeutas ocupacionais, e até mesmo outros líderes religiosos). A autora destaca a necessidade de padres e pastores serem mais assertivos, não abrindo mão a todo o momento de suas necessidades e dificuldades em nome de uma autodisciplina ou cuidado com o outro. Desenvolver amizades sólidas e atividades de doação de sentido também externas a igreja: reunião de amigos, prática de esportes, lazer (que é diferente de descanso) também é muito importante.
Nossos líderes não são onipotentes. E conforme afirma Luciana: "Somando excessiva autocrítica, pouca assertividade, dificuldade de delegar tarefas, tendência ao autossacrifício exagerado e pitadas de perfeccionismo, temos uma receita infalível para o adoecimento".



Comentários
Postar um comentário