Porque se escreve literatura? Um manifesto
Todos os escritores, pelo menos nas fases iniciais do seu trabalho, já ouviram bastante as perguntas: “Isso que você escreveu foi sobre a sua vida”? “De onde vem à inspiração para...?” Todas estas indagações e mais tantas outras são perfeitamente legítimas. É comum que a criação literária suscite curiosidades mais particulares sobre a vida de quem as criou, dado o fato dos próprios personagens da ficção ser pessoas, que assim como o escritor e o leitor detêm seus dramas e histórias bastante semelhantes.
No entanto, há uma pergunta que vez por outra desperta algumas dificuldades quando direcionadas a ficcionistas ou poetas dos mais variados gêneros: “Você escreveu isto para quê”? Quando escuto esta pergunta imagino uma contraproposta: “Você acha que Deus criou o mundo para quê”? Dito de modo: o exercício da criação literária é tão ausente de “razões”, como o exercício da criação do universo.
Guardada as devidas proporções, o que a teologia irá denominar de relações extratrinitarianas, responsáveis pela criação de tudo o que existe como consequência do relacionamento amoroso do Pai, do Filho e do Espírito, encontra um ponto de semelhança na genialidade de Danti Alighieri, Dostoievski, Boécio... A criação literária coloca “para fora” as relações já vividas de “dentro” (quem cursou dogmática que entenda). E até um ateu como Mia Couto sabe disso:
“A casa, aquela casa nossa, era morada mais da noite que do dia. Estranho, dirão. Noite e dia não são metades, folha e verso? Como podiam o claro e o escuro repartir-se em desigual? Explico. Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos meninos para sempre.” (Poema: Inundação).
Quando encontramos no Gênesis a afirmação de que “houve luz” pela voz de Deus e, analogamente compreendemos a partir daí o poder da escrita criativa e dos saberes literários em lançar “luzes”, justamente sobre tudo aquilo que fora criado, a sentença que encerra todos os seis dias da criação encontra seu pleno sentido: “E viu que tudo o que fora criado era bom”. Essa é uma das respostas que “prego”, quer seja sobre a razão dos “Irmãos Karamázov” quer seja sobre a origem do universo.
O curioso é que: tudo fora criado de uma forma perfeita, mesmo suscetível ao pecado. E, mesmo sendo atingidos pelo poder da desobediência do Éden, os céus ainda “proclamam a glória de Deus anunciando a obra das suas mãos”, ao mesmo tempo em que “geme com dores de parto”. Ora, também não vejo nada muito “feliz” na peça de Sófocles sobre Édipo Rei, ainda que o drama tenha se tornado uma das obras literárias fundamentais para a compreensão de determinados desejos humanos, tal qual nos sugeriu Sigmund Freud. Logo, que tipo de “bondade” fundamenta essas narrativas? A resposta nos exigirá um pouco mais de esforço, para que não a compreendamos de forma infantil, desvencilhando-as de todo o mistério que carrega.
Seja nas narrativas sobre a criação do universo ou nas tragédias gregas, é a forma como as experiências humanas são articuladas em palavras o grande milagre da bondade divina percebida nestes atos criativos. Tanto na criação de Adão ou na de “um anjo esbelto, desses que tocam trombeta” (Adélia Prado) é a forma como: do nada algo surge se enchendo de significado, impossível de ser obtido pelos seus átomos intrínsecos, assim como pelos papéis e tintas constituintes. Ainda que por eles perpassem, naturalmente se colocam como “antinaturais” nos lançando para além deles.
A escrita literária e a escrita sagrada se fundem no labor que dedicam às camadas da experiência humana próprias ao mundo das intenções e da percepção sensível. Ambivalências, culpas, dores, alegrias, são algumas condições comuns, tanto a “Raskólnikov” como ao salmista “Davi”. Estes são responsáveis por forjar personalidades, indicar vivências, descrever espiritualidades que, de forma alguma conseguem se desencarnar da presença destes personagens.
A reflexão teológica alimenta-se dos dados da fé, a literatura, por sua vez, resguarda uma transcendência, quando não entre o material e o imaterial, entre as situações vivenciadas. Os recursos literários e os recursos da crença não são tão distintos. O diálogo pode nos levar a compreensões da existência humana muito próximas, bem como entender melhor sentimentos e atos, seja de pessoas de fé ou não, que parecem apontar para as mesmas perguntas e almejar as mesmas respostas.
Como diz a cronista e jornalista brasileira Eliane Brum: “É preciso contar”. Ao contar o que nos "passa", utilizando-se dos parâmetros literários, encontramos às vezes a melhor palavra, a melhor situação, e o melhor personagem para isso. “Contar” é redentivo. Pode ser a primeira expressão do “conforto” ou o primeiro degrau do “confronto”. Ao contar, colocamos para fora, seja nossas alegrias e tristezas, e passamos a observá-la na “crueza literária” que lhe são próprias.
É a intenção da obra criada que mais revela a glória da sua criação. Uma epifania da presença que, por mais que não tenhamos palavras exatas para abrigá-la em um conceito, conseguimos compreender muito claramente quando lemos: “Os céus anunciam a obra das tuas mãos” ou “éramos meninos para sempre”.



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