"Tempo de despertar": uma leitura sobre a teologia judaica da ressurreição
"Depois que minha pele for destruída, então, em minha carne, verei a Deus" (Jó 19.26)
A cultura semítico-judaica, seja tomada em seu contexto religioso ou secular, consiste em uma das formas mais ricas e abrangentes de expressão antropológica em toda história das civilizações. Independente da variedade de opiniões envolvendo os conflitos palestinos, desde a invasão de Jericó até a criação do moderno Estado de Israel, não resta dúvida que o acervo simbólico do povo hebreu se inscreve no imaginário Ocidental como uma das formas mais expressivas da experiência humana.
Dentro da cultura semítico-judaica, o que se denomina de "judaísmo do antigo testamento" pode ser compreendido como um conjunto de crenças provenientes da religiosidade hebreia expostas no texto veterotestamentário. Logicamente, essas crenças não permaneceram estáticas no transcurso do primeiro e segundo século, período de surgimento do movimento de Jesus, nem tampouco no próprio texto da bíblia hebraica, sofrendo mutações e reedições em virtude de inúmeros fatores, sendo inabarcável em sua totalidade para as pretensões aqui envolvidas.
Tendo um foco mais restrito, o presente ensaio tem por objetivo refletir de uma forma introdutória em torno de uma das doutrinas mais importantes da teologia não apenas judaica, mas também dos outros dois grandes monoteísmos abraâmicos (cristianismo e islamismo): a doutrina da ressurreição. Concentrar-se-á na compreensão que se desenvolveu ao longo do tempo a partir da experiência religiosa do hebreu frente à bondade do seu Deus, impulsionando-os a crer que: "depois que minha pele for destruída, então, em minha carne, verei a Deus" (Jó 19.26)[1].
Sem pretensões acadêmicas muito específicas, concentro-me em um dos principais trabalhos, oriundo da teologia cristã, publicados na área: o abrangente estudo do teólogo anglicano N.T Wright: A Ressurreição do Filho de Deus. Alguns comentários bíblicos também serão referenciados no sentido de um aporte hermenêutico adicional.
Ainda que a presente obra esteja alocada na prateleira da fé cristã, o que sem sombra de dúvida trará outros direcionamentos para a questão, N.T Wright aproxima-se bastante de um entendimento judaico possível, demonstrando uma clareza admirável na compreensão dos postulados referentes ao tema. Sigo suas três importantes compreensões da presente teologia judaica na abordagem aqui sugerida: "(a) os mortos estão 'adormecidos com seus ancestrais; (b) os mortos podem ser recebidos por YHWH[2] em um tipo de vida continuada; e (c) alguns dentre os mortos podem esperar por uma ressurreição após algo como a 'vida após a morte'" (WRIGHT, 2013, p.195).
A TEOLOGIA DA RESSURREIÇÃO NO JUDAÍSMO DO ANTIGO TESTAMENTO
A compreensão do judaísmo do antigo testamento sobre a doutrina da ressurreição é de caráter progressivo, sendo desenvolvida desde suas formas mais incipientes até o que será entendido posteriormente por "restauração nacional". Em um primeiro momento, o entendimento semítico quanto à morte pode ser expresso como um "adormecimento com os ancestrais". Não havia esperança para aqueles que desciam a sepultura e nada se esperava após ela, a não ser o adormecimento eterno. No Salmo 115.17 diz: "Os mortos não louvam ao Senhor, nem os que descem ao silêncio".
É importante salientar que esta descida a sepultura não pode ser interpretada, pelo menos de início, como algo ruim, um local de tormenta ao morto. Nem tampouco como um lugar de gozo ou alegria eterna. Mas sim, como indica certo conjunto de textos bíblicos, apenas como um adormecimento com os entes familiares. Em 1Rs 2.10, onde se narra a morte de Davi, está escrito: "E Davi dormiu com seus pais, e foi sepultado na cidade de Davi". N.T Wright comenta:
“Davi "dormiu com os seus antepassados e foi sepultado na cidade de Davi", o que fica ainda mais interessante, uma vez que seus antepassados não foram sepultados lá. Em outras palavras, "dormir com os seus antepassados" não era simplesmente uma forma de dizer que uma pessoa havia sido sepultada na mesma sepultura ou cova, mas que a pessoa fora ao mundo dos mortos para se reunir ali com os seus antepassados. O tipo mínimo de "vida" que as sombras tinham no Sheol[3], ou na sepultura, se aproximava mais ao sono do que a qualquer outra coisa conhecida pelos vivos. Elas podiam, em alguns momentos, ser despertadas de seu estado de coma através de um recém-chegado especialmente distinto, como em Is 14, ou (como veremos) através de um necromante; contudo sua condição normal era o sono. Elas não eram completamente não existentes, mas para todos os efeitos eram, por assim dizer, quase nada” (WRIGHT, 2013, p.150).
O entendimento quanto a esta ausência de esperança relacionada à morte para o fiel judaico fora mudando no decorrer do tempo e, como já fora mencionado, a crença na bondade de YHWH proporcionou uma nova compreensão em torno das relações pós-morte dentro da teologia judaica.
Compreensões diferentes passaram a figurar na cultura semítica: libertação do sheol: "Pois tu não me entregarás ao sheol [...]" (Sl 16. 10); recebimento em glória após a morte: "Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá" (Sl 49.15). Estas novas interpretações sobre a relação do indivíduo no pós-morte, surgiam mediante o confronto da fé do povo de Israel com as injustiças e infortúnio da vida, segundo Wright: "Quando esta vigorosa fé em YHWH como criador, provedor da vida, Deus da justiça última, se encontrava com a aparente contradição de injustiças e sofrimento da vida, neste ponto ocorriam, como vimos, a possibilidade do surgimento de novas crenças" (WHIGHT, 2013, p.173-74).
Os textos acima figuram sobre o segundo ponto do nosso esquema: "os mortos podem ser recebidos por YHWH em um tipo de vida continuada". Contudo, não é especificado quanto à natureza concreta deste tipo de vida. A crença mais final em termos de uma doutrina da ressurreição pode ser vista na compreensão de Dn 12.2-3[4].
Muitas interpretações foram feitas concernentes ao significado do texto de Daniel. As figuras de linguagem utilizadas: "brilharão como resplendor do céu", "como as estrelas para sempre", fez os intérpretes postularem uma teoria da "imortalidade astral" consequente ao pós-vida. Interpretação que se mostrou inadequada por diversos motivos[5]. Ao que tudo indica na concepção de Wright, o possível entendimento quanto à ideia de uma ressurreição no texto de Daniel refere-se à restauração do povo de Israel, uma metáfora direcionada para o pós-exílio. A compreensão pode ser desenvolvida sob o seguinte esquema:
“Mas onde havia um forte senso de exílio como punição divina por rebelião, deslealdade e idolatria (é de se perguntar se a história de Gn 3, de Adão e Eva expulsos do jardim, era lida neste período como um paradigma da expulsão de Israel da terra prometida; contudo, não há evidências direta para esta conexão), então era necessário um pequeno passo para esta expulsão ser vista como "morte", com a vida no exílio sendo vista como estranha meia-vida vivida após esta morte, e o retorno do exílio como uma nova vida após a morte, uma nova vida corpórea, i.e. ressurreição. Esta parece ter sido exatamente a rota tomada tanto por Ezequiel[6], quanto por Daniel, tendo o último se baseado em Isaías[7] e, talvez, em Oseias[8]” (WHIGHT, 2013, p.193).
É importante salientar que a teologia da ressurreição do antigo testamento não deixa claramente demarcada às fronteiras quanto até que ponto esta ressurreição poderia ser compreendida como exclusivamente metafórica, não franqueando nenhum sentido a uma ressurreição corpórea literal, como fora interpretada por algumas vertentes judaicas nos tempos de Jesus e Paulo. O que é interessante afirmar é a conexão interna que se desenvolve do tríplice esquema de Wright: "(a) os mortos estão 'adormecidos com seus ancestrais'; (b) os mortos podem ser recebidos por YHWH em um tipo de vida continuada; e (c) alguns dentre os mortos podem esperar por uma ressurreição após algo como a 'vida após a morte'". O desenvolvimento interno que perpassa as três compreensões do teólogo anglicano confere um progresso sobre a doutrina da ressurreição muito próprio a religião judaica, desdobrando, consequentemente na compreensão cristã sobre a ressurreição dos mortos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Todos os três grandes monoteísmos abraâmicos conservam em seu bojo doutrinário alguma doutrina que compreenda, seja diretamente ou em alguma forma de alusão, a ideia de uma ressurreição corpórea, seja por parte dos fiéis religiosos que morreram ou descrentes. Se há alguma relação específica em que, a crença em um único Deus onipotente tenha como consequência à doutrina da ressurreição corpórea dos mortos, isto carece de uma observação mais aprofundada e inevitavelmente trará à discussão a legitimidade de outras doutrinas, cujas o objetivo do presente estudo não propõe.
O estudo desenvolvido por N.T. Wright elucida a compreensão da doutrina da ressurreição desenvolvida no judaísmo do antigo testamento no tríplice esquema apresentado onde: da compreensão da morte como sono eterno com sua ancestralidade, o judeu evolui para a compreensão da restauração nacional pós-exílica que, embora não seja tão seguro crivar nos textos bíblicos analisados o sentido de uma ressurreição corpórea literal, inevitavelmente esta será uma das correntes de interpretação mais expressivas no judaísmo do segundo templo.
REFERÊNCIAS
ANDERSEN, Francis. Jó: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Edições Vida Nova, 1984.
BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento; tradução de Valdemar Kroker. – São Paulo: Editora Vida, 2008.
WRIGHT, N.T. A ressurreição do filho de Deus; tradução: Eliel Vieira. Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2013.
[1] Esta é uma das passagens mais difíceis quanto ao estabelecimento da doutrina da ressurreição corpórea, sobretudo pela teologia geral do livro de Jó não oferecer uma base interpretativa firme para esta compreensão. No entanto, ela fora disposta no presente trabalho justamente por parecer ser um protótipo da elucidação que se dará muitos anos à frente. Para o teólogo Francis Andersen há boas razões para se acreditar em uma incipiente doutrina da ressurreição no texto de Jó: "Primeiramente, não haveria necessidade de Jó depositar um testemunho escrito, se espera ser vindicado antes de morrer. Em segundo lugar, a palavra traduzida por terra, conforme é usada em Jó, tem conexão constante com o Sheol, e a declaração de que o Redentor vive é uma resposta direta ao fato de que o homem morre (14.10). A repetição da palavra depois na posição de destaque no começo do v.25b (ARA tem por fim) e v.26a sugere um intervalo, ou até mesmo, como o significado de por fim, alguma coisa escatológica. Finalmente, o argumento de que Jó não espera a reconstituição pessoal como homem, porque esta idéia não entrou no judaísmo senão bem no fim do período bíblico, pode ser descartado à luz de muitas pesquisas recentes que revelam o interesse na vida além-túmulo como uma preocupação muito antiga para a fé israelita" (ANDERSEN, 1984, p.193).
[2] A sigla: "YHWH" consiste na transliteração do tetragrama sagrado compreendido a partir dos textos do antigo testamento como o nome de Deus. Uma de suas traduções comumente mais usada é: Javé ou Jeová.
[3] "Sheol": palavra hebraica para sepultura.
[4] Para o teólogo F.F Bruce: "O martírio compreensivelmente estimulou a reflexão mais profunda acerca da morte, de forma que os pensamentos de ressurreição se tornaram mais fortes com as perseguições de Antíoco e com os problemas posteriores" (BRUCE, 2008, p.1206).
[5] "Deve se ter em mente duas outras fortes considerações: primeiro, que não existe indício algum do tipo de cosmologia subjacente ou adjacente que encontramos em Platão, Cícero ou outras expressões da 'imortalidade astral' clássica; segundo, que a sequência de pensamento no vv. 2 e 3 apresenta um futuro em dois estágios, bastante distinto do que encontramos no Timeu, no sonho de Cipão, ou nos vários epitáfios onde a 'imortalidade astral' encontrou expressão popular" (IDEM, p.177-78).
[6] Ez 37.1-14
[7] Is 26.19
[8] Os 6.1,2



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