A religião é invencível (I): breves notas sobre os seus marcos civilizatórios
No último dia 29 de fevereiro, o Ministério da Saúde
emitiu uma Nota Técnica Conjunta (Nº 2/2024) que apresentava novas orientações
para as práticas do aborto previstas por lei. A nota estendia o prazo do limite
previsto (21 semanas) para qualquer período de gestação. Ou seja: se fosse
preferível assassinar a criança, mesmo após ela já está totalmente formada no
ventre materno (9 meses), ao invés da realização do parto com o infante vivo
(uma vez que o parto será realizado de todo jeito, seja abortando-a ou não) a
nota técnica estabelecia todo o apoio jurídico necessário, fundamentando a
presente sandice da seguinte forma:
“3.14: [...]
teorias provenientes de estudos com animais sugerem a possibilidade de um
estado intrauterino permanente de inconsciência, sobretudo pela presença de
substâncias químicas como a adenosina, que suprime a ativação cortical maior na
presença de um estímulo externo. Isso significa que, até o nascimento, quando
ocorre a separação do recém-nascido do ambiente uterino, o feto muito provavelmente não é capaz de sentir dor” (MINISTÉRIO DA SÁUDE – grifo meu)[1].
A nota fora revogada quase que de imediato, mediante a
reação de opositores do atual governo brasileiro e de vários setores da
sociedade civil que se manifestaram contra o Ministério da Saúde.
O tema do aborto ronda o nosso judiciário[2] e
o resto do mundo[3], suscitando as antigas
“marotagens” por parte dos seus defensores: “o aborto é uma questão de saúde
pública”, “empoderamento feminino”, “liberdades individuais” e por aí vai... Juntamente
com a declarada intenção de criminalização do imaginário cultural conservador,
este precisando cada vez mais (em termos jurídicos) justificar os pressupostos
religiosos que fundamentam suas convicções, o assunto grassa a sociedade civil,
envernizando-se “em nome da democracia”.
O presente debate interessa ao discurso religioso sob
suas duas formas possíveis: laica e religiosa. Estas se entrecruzam
semanticamente, endossando minha tese sobre a sua invencibilidade, sobretudo,
no poder que a religião[4]
possui em discutir qualquer assunto que afeta a dignidade humana.
A religião é invencível, não porque suas instituições
são poderosamente opressivas (o Estado moderno já tomou essa prerrogativa para
si), mas porque a natureza do seu saber contorna o fenômeno humano de forma
fundamental. De modo que, ainda que você não acredite na história sobre Adão e
Eva, na ideia de Pecado Original, e na vida após a morte, estas narrativas pavimentam
o solo da experiência humana, nos “enquadrando” nelas, mesmo que
inconscientemente. Independente da nossa adesão racional ao conteúdo histórico e
religioso destes relatos, eles se levantam contra nós como arquétipos
universais[5],
capazes de “engolir” a nossa compreensão secular sobre a origem da espécie
humana e o seu fim.
A insuperável capacidade que o discurso religioso tem
em produzir valores[6] nos absorve pelo imenso
potencial de sentido que possui. Sentido este suficiente para nos tornar
inescapáveis ante sua “graça”, ainda que não nos satisfaça por completo
(especialmente se estamos falando em “satisfação” em termos contemporâneos). Ora,
a única forma natural de procriação da espécie envolvendo duas pessoas; a
constante insuficiência que nos aflige, nos tornando constantemente dependente de
algum tipo de coerção externa; e a razoável possibilidade de separação ética
entre indivíduos, se houver alguma forma de continuidade da nossa consciência
quando o nosso organismo parar de funcionar[7], constituem,
a despeito da infinidade de discussões sobre o mistério da vida e da natureza
última da moralidade e da justiça, indícios concretos de como a narrativa
religiosa condiciona nossa forma de “ser-humano”, pois só ela doa um tipo de valor
fundamental para estas experiências.
Avançamos com a inteligência artificial ao mesmo tempo
que permanecemos profundamente ignorantes quanto a estes temas. Não conseguimos
decifrar cientificamente o que está realmente por trás destas constatações, além
de não sabemos mais destes assuntos do que qualquer um de nossos ancestrais pré-históricos. Esse
estranho diagnóstico humano, de sabermos mais do que devemos e menos do que
precisamos, nos amarra a profecia de Daniel: “Tu, porém, Daniel, cerra as
palavras e sela o livro, até o fim do tempo; muitos correrão de uma parte para outra, e a ciência se multiplicará”
(Dn 12.4); evidenciando que enquanto “os selos” não forem abertos, não
deixaremos de andar em círculos (“de uma parte para outra”).
Para além da sua forma epistêmica, as religiões
constituem marcos civilizacionais e abordagens existenciais profundas, de tal
forma que, qualquer religião minimamente séria (e estas possuem em média mais
de mil anos) funciona como um “microcosmo”, cujo qualquer fiel pode nele
receber sentido para a sua vida, desde antes de nascer até depois da sua morte[8]. Tal
abordagem implica em um desafio imenso para as cosmovisões seculares,
sobretudo, em sua histórica pretensão em descaracterizar a experiência
religiosa enquanto experiência humana.
Na esteira desta pretensão, a modernidade tentou
trabalhar a separação entre Religião e Estado, por vezes, colocando estas organizações
uma contra a outra. Quando estas duas instituições pretendem estabelecer seus
valores de forma exclusivamente conflitantes (o que é até discutível, dada a
hipótese de que os valores modernos contrários a religião sejam apenas valores
“dissidentes”, retirados do contexto religioso ainda que permaneçam com seus
mesmos anseios[9]), o quadro que se pinta
diante de nós é claramente de uma natureza assimétrica.
Há de um lado, milênios de compreensão humana a partir
das narrativas religiosas sobre tudo o que nos cerca (visível e invisível)
contra ideias que, ainda que devam constituir a sociedade contemporânea, são
muito, mais muito recentes, ante a profundidade de um passado que não “passou”,
representado pelas experiências pessoais vivas dos seus fiéis e das suas
instituições religiosas.
Ora, como equacionar a consciência moderna e religiosa
em torno da disputa por direitos civis e fundamentais no mundo em que vivemos? Mediante
o que fora exposto, vimos que a religião para funcionar precisa “pegar pesado”, ou seja,
ela não se constitui na história da nossa espécie apenas como uma “opção”. Em contrapartida,
a experiência humana é hoje disputada por outras narrativas que desejam
profundamente expulsá-la deste território (“tire seu rosário dos meus
ovários”). É possível construir uma teologia pública em torno destas questões,
preservando ao mesmo tempo a legitimidade jurídica das visões de mundo
seculares, professadas por cidadãos que não possui fé?
As crenças morais, bem como o estabelecimento institucional delas através da criação de associações, partidos, agremiações, é um bem partilhado por todos os seres humanos (segundo a tradição cristã: de procedência divina) e um direito civil de todo indivíduo. O exercício de conviver com as suas diferenças é complexo, pois tudo nesta vida atravessa os nossos interesses pessoais, ainda que neguemos isto falando em nome da “humanidade” ou da “democracia”. Algumas constatações podem aclarar perspectivas de diálogos criativos entre religiosos e não religiosos para além do “nós contra eles”, condicionando olhares mais criteriosos e responsáveis no debate público. Ainda assim, é possível que a maioria “prevaleça”, porém sem a degradação social do monopólio político.
As reflexões propostas pelos filósofos Ernst-Wolfgang Böckenförde e Jürgen Habermas, podem aclarar perspectivas para este embate de forma contemporânea e que caminha entre uma conciliação democrática e necessária entre as visões de mundo religiosas e seculares. Sobre elas trataremos no próximo artigo.
NOTAS:
[1] A nota na íntegra está disponível em: https://multimidia.gazetadopovo.com.br/media/docs/1709209133_sei-ms-0038246948-nota-te-cnica-conjunta.pdf. Acesso em: 10 de março de 2024.
[2]
Sobre como o Ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Roberto Barroso entende
a criminalização do aborto conferir: “O voto do ministro Barroso sobre o aborto
em dez pontos”. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/12/01/politica/1480609655_165840.html.
Acesso em: 10 de março de 2024.
[3] “Macron deseja incluir aborto na Carta dos
Direitos Fundamentais da UE”. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/macron-deseja-incluir-aborto-na-carta-dos-direitos-fundamentais-da-ue/. Acesso em: 10 de março de 2024.
[4]
Não tenho a intenção aqui de fazer a distinção técnica entre os termos religião
e espiritualidade. No presente texto seus significados são na maioria das vezes
intercambiáveis, sendo a religião a expressão materializada da espiritualidade
no mundo concreto.
[5]
A expressão aqui não está necessariamente relacionada a complexa teoria
junguiana dos arquétipos universais do inconsciente humano. Faço uso deste
conceito de forma “fraca” para exemplificar o argumento em tela.
[6]
Refiro-me a valores de verdade, não aqueles que a gente escolhe! Os que a gente
escolhe são na maioria das vezes ambíguos, resguardando para si uma sutil
contradição por vezes imperceptível, sobre a qual nos orienta o apóstolo Paulo:
“E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que
entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso
me aproveitará” (1 Co 13.3).
[7]
De natureza misteriosa e instigante, são as pesquisas médicas relacionadas ao
fenômeno da consciência fora do corpo (visão remota). Em casos de morte
clínica, muitos pacientes alegam ter tido experiências “sensíveis” com o seu entorno
antes de “voltarem” a viver. Concentrei-me por um tempo nessas descrições
médicas (não me interessei pelas interpretações religiosas que comumente se
fazem, detendo-me apenas na descrição clínica do fenômeno em si) e, ainda que
estejamos em um âmbito de pesquisa cheio de incógnitas, a tese da imortalidade
da alma parece evidenciar-se de alguma forma.
[8]
Tal fato nos permite pensar que mudar de religião é quase que uma experiência
impossível. Ou você nunca a teve e encanta-se por uma; ou você nunca a
abandona, embora possa transitar institucionalmente por várias e até dizer que
não a possui mais; ou permanece sem nenhuma até o fim da vida, ainda que existencialmente
demonstremos a todo momento a nossa natural inconformidade com a “natureza”. Aderir
a uma religião de verdade é quase que uma experiência irreversível.
[9] Eis uma das principais teses do teólogo e jurista alemão Carl Schmitt, defendida na obra: Teologia Política.


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