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Emerson Silva
Pastor congregacional, Teólogo e Doutor em Ciências da Religião.

O inferno do desejo

R$ 9,90 (nove reais e noventa centavos). É esse o preço da realização do seu desejo mais uma simples “contrapartida”.

(Sobre a 1ª temporada da série Desejos S.A. Não contém spoiler)

A nova série brasileira “Desejos S.A”, protagonizada por um elenco conhecido das nossas telas (Carol Castro, Marcos Pasquim, Patrícia Gaspar e a estreia do cantor Diogo Nogueira), chega ao streaming Star + propondo uma importante reflexão que, infelizmente, se encontra ausente na barulheira midiática em torno das palavras “liberdade”, “empoderamento”, “desenvolvimento pessoal” e cia. Iniciando com a célebre afirmação do filósofo alemão Arthur Schopenhauer: “Existem duas formas de ser humilhado pela vontade: quando você não a realiza e quando você a realiza”, os episódios contam diversas histórias que tem como personagem principal o “desejo humano”.

Sexo, poder, inseguranças, ciúmes, fantasias, anseios infantis, tudo isso perfaz uma forma misteriosa e avassaladora que estrutura a espécie humana de forma exclusiva[1]. Por detrás de todos estes temas está o lócus do “desejo”, uma espécie de “querer” profundo, ou “inconsciente”, ou “adâmico”. Na elaboração dos psicanalistas, diz respeito a “um saber insabido”, que parece competir com a vocação humana à racionalidade apontada por Aristóteles. A “subversão do sujeito da razão”, condição fundamental para a análise freudiana, é o principal dilema da série.

Criada pelos cineastas argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn, a série é uma produção sofisticada com detalhes bastante sutis que se originam, ou de uma reflexão muito próxima aos saberes do desejo (psicanálise, antropologia, teologia, filosofia) ou de uma percepção empírica bem direcionada ao duro chão da experiência humana. Uma empresa, via call center, oferece o serviço da realização do desejo pessoal dos seus clientes sob o slogan: “O que você quiser, quando você quiser”. O preço do serviço é uma tacha simbólica de R$ 9,90 e uma “contrapartida”: contribuir para a realização do desejo de outro cliente.

Durante a trama, o ator Silvero Pereira interpreta um personagem cadeirante que parece entender o teor conspiratório, seja por detrás do serviço ofertado, seja a partir das implicações pessoais que a realização do desejo proporciona. Sempre que o cliente está prestes a realiza-lo, ele ergue uma placa escrita: “o desejo é uma armadilha”.

O conceito de desejo é consideravelmente intrigante e atravessa com “força” a reflexão sobre a condição humana. Quase todos os que se dedicaram a pensar o assunto podem ser entendidos como proponentes de uma compreensão que entende a natureza humana de forma “restrita”. A definição é do filósofo norte-americano Thomas Sowell que em seu livro “O conflito de visões” (2007), categoriza de duas formas a longa tradição intelectual do ocidente que se propôs a discutir a temática: visão da natureza humana irrestrita e restrita[2].

A visão de natureza humana irrestrita, acredita que possuímos todos os recursos necessários para o nosso desenvolvimento pessoal. Ancorados em pensadores como Jean Jacques Rousseau, William Godwin, Immanuel Kant, a compreensão gira em torno de uma certa suficiência moral presente na nossa espécie, sem limite fixo, que nos possibilitaria: “realizar por uma inclinação natural as mesmas tarefas que hoje nos custam esforço e sacrifício” (CONDORCERT apud BAKER, 1975, p.217)[3].

A visão de natureza humana restrita, apoiada em autores como Adam Smith, Edmund Burke, Freud, e, grosso modo, toda tradição psicanalítica, acredita que, no que tange a evolução humana não temos muito horizontes precisos e nossos recursos para tal são escassos. Logo, a espécie estaria sempre dependente de algo fora dela para lhe conduzir, em virtude das “enfermidades gerais da sua natureza” (BURKE).

A trama nos faz olhar o cotidiano dos personagens pelo “buraco da fechadura” e ver de que forma eles são disputados entre a moral e a “felicidade”: se de forma irrestrita ou restrita. O baixo preço estipulado, visa nos mostrar o alto preço da contrapartida, reiterando a necessidade apontada por Freud do “mal-estar na civilização”. A expressão do fundador da psicanálise faz eco com a do liberal Friedrich Hayek quando diz: “as regras indispensáveis da sociedade livre exigem de nós muito do que é desagradável” (HAYEK, 1979)[4].

O desfecho da primeira temporada ilustra de uma forma bastante prática a sentença já mencionada de Schopenhauer. Ou seja, não há em nós saídas para o desejo. Como no conto “O inferno” do Nelson Rodrigues, estamos presos no circuito aberto pelas nossas satisfações até quando elas já não mais existem. O pedido de “Odésio”, personagem do conto que é ponte do desejo entre Romualdo e Lucília, se realizou sob a seguinte descrição do nosso dramaturgo: “E continuou voltando, escravo do ‘último pedido’ de uma criança. Quando, finalmente, ela se cansou dele e quis deixá-lo, Romualdo lembrou, apenas, o desejo do menino. Então Lucília compreendeu que estavam unidos, e para sempre, dentro de um inferno” (RODRIGUES, 2022, p.16)[5].


NOTAS: 



[1] É interessante notar que até a presente data não conseguimos entender direito o que seja as duas estruturas fundamentais da nossa espécie que nos diferencia dos demais animais: “razão” e “desejo”.

[2] “Trata-se de abstrações de conveniência, reconhecendo que há gradações nas duas visões, que um continuum foi dicotomizado e que no mundo real frequentemente há elementos de cada uma inseridos na outra de maneira inconsciente, bem como inúmeras combinações e trocas” (SOWELL, 2007, p.24).

[3] BAKER, Keith Michael. Condorcert: From Natural Philosophy to Social Mathematics. Chicago: University of Chicago Press, 1975.

[4] HAYEK, Friedrich. Law, Legislation and Liberty. Chicago: University of Chicago Press, 1979. 

[5] RODRIGUES, Nelson. O inferno. In: A vida com ela é. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2022. 

 

Comentários

  1. A análise da série (sem spoiller rs) nos dá uma visão ampla sobre a temática "DESEJO", que em estruturas fundamentas e morfológicas é a vontade de TER, sobretudo o que não possuímos. Mas a grande reflexão, se estende a frase de Schopenhauer " O desejo de ter, o tédio de possuir". Acreditando que tal prerrogativa é base humana do desejo.

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