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Emerson Silva
Pastor congregacional, Teólogo e Doutor em Ciências da Religião.

“CUMPRA-SE EM MIM CONFORME A TUA PALAVRA”: O QUE APRENDEMOS COM A MÃE DE JESUS SOBRE O NATAL?

 


Apesar do humanismo secular que todos os anos assalta a celebração natalina, insistindo em resumir a fé cristã à valores que, muito embora sejam nobres e necessários ao mundo contemporâneo, não equiparam-se àquilo que nos fora trazido pelo Salvador (“Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles – Mt 1.2”), este período do ano ainda é bastante propício para refletirmos sobre a encarnação do Verbo divino e as consequências daí decorrentes para toda a humanidade.

Como ressalta o teólogo protestante Karl Barth, no Natal e na Páscoa cristã celebramos as duas “pedras de toque fundamentais” para o cristianismo. Estas sinalizam para vocação divina de todos os que abraçam essa fé: no dogma da nascimento virginal, encontramos uma nova forma de se tornar humano – nascido do Espírito e não mais da vontade do homem e da carne (Jo 1.13), e no Domingo de Páscoa, acolhemos um novo destino. Pois, sendo Ele as “primícias dos que dormem” (1 Co 15.20), não somos mais “seres para morte” (HEIDEGGER). Nestes mistérios, tanto Deus como a humanidade se tocam transcendendo seus limites.

No relato da anunciação (Lc 1.26-38), o significado do advento traz consigo importantes verdades espirituais conforme a simbologia de um “grão de mostarda”. Este carrega dentro de si a pujança da vida de forma simples e profunda, à semelhança do Senhor da vida que opta por ser gerado em um útero materno. A visita do Anjo Gabriel a Maria de Nazaré e a sua reação à anunciação divina, comunicam ao mundo, em todas as épocas, que não há “impossíveis para Deus em suas promessas” (Lc 1.37) e, mediante a isso, a humanidade precisa responder de alguma forma (Lc 1.38).

A figura de mãe de Jesus possui um valor inestimável para todas as tradições cristãs. Ainda que seja por vezes esquecida, ou superestimada, seu devido crédito se impõe a qualquer um que leia no Evangelho de Lucas o seu testemunho. No relato da anunciação, uma jovem, por volta dos seus quinze anos e residente em Nazaré, vilarejo da Galileia que fica ao sul de Israel, recebe uma visita inesperada: o mesmo anjo que encontrou o profeta Daniel e lhe revelou um dos textos mais misteriosos da escatologia judaico-cristã (as 70 semanas – Dn 9.20ss), lhe aparece tornando-a parte destas “semanas do fim”: “Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus”. (Lc 1.35).

Há duas reações da mãe de Jesus que são modelos de resposta para todas as vezes que recebemos a visita do nosso Deus, seja de que forma for. A primeira, característica que lhe é muito própria, está descrita em Lc 1.29: “Ela, porém, ao ouvir esta palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação”.

Lucas a descreve como uma jovem introspectiva, dotada de uma interioridade bastante reflexiva (Lc 2.19: “Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração”). Ao espantar-se com a visita recebida, ela se dispõe a tentar entender o que está acontecendo. Mantendo-se temerosa, não permite que o espanto obscureça o seu entendimento como aconteceu com Zacarias (Lc 1.18-20), mas decide meditar no que fora dito, entrando em diálogo consigo mesma. Ela se abre ao confronto íntimo com a Palavra. Nas saudosas palavras do Pontífice Emérito Bento XVI, a mãe de Jesus:

“Não se detém no primeiro sentimento que a assalta, ou seja, a perturbação pela proximidade de Deus através do seu anjo, mas procura entender. Por isso, Maria aparece como uma mulher corajosa, que conserva o autocontrole mesmo diante do inaudito. Ao mesmo tempo, é apresentada como mulher de grande interioridade, que conjuga o coração e a mente, e procura entender o contexto, o todo da mensagem de Deus. Assim tornar-se imagem da igreja, que reflete sobre a Palavra de Deus, procura compreendê-la na sua totalidade e guarda o dom dela na sua memória” (RATINGER, 2016, p.35)[1].

Ao se permitir a esse recolhimento, ela entende a sublime vocação que lhe está posta. E para exercê-la, toma uma das decisões mais sublimes que a liberdade humana já permitiu realizar. Mesmo temerosa, a serva do Senhor responde com a mesma grandeza dos profetas veterotestamentários (Is 6.8): “Cumpra-se em mim conforme a tua palavra” (Lc 1.38).

Se colocar a serviço do próprio Senhor que ela está gerando lhe custou muitas lágrimas: problemas familiares (Mt 1.18,19), atentado contra a vida da criança (Mt 2.19,20) e, por fim a própria morte do seu primogênito (Jo 16.26,27). No entanto, este “sim” no início da sua jornada, ficou marcado como um precioso modelo humano de resposta a Palavra do nosso Deus. Não há nenhum recurso próprio da serva do Senhor que lhe tornou apta para introduzir o nosso Salvador ao mundo. Há, no entanto, as duas preciosas características que precisam mover os nossos corações nesse Natal: reflexão e submissão.

Pensemos:

Nas últimas décadas, se intensifica cada vez mais a existência de duas celebrações natalinas: uma secular, permeada por valores humanistas, facilmente cooptáveis pela sociedade de mercado; e uma religiosa, sob a qual se destina as celebrações cristãs nas igrejas que ainda sustentam a mensagem mais profunda do Natal.

Não há nenhum problemas com as luzes, ceias, distribuição de presentes e com todo o clima de fraternidade que atravessa os nossos corações neste período. O problema há, quando tudo isso é desconectado do único advento responsável pela real concretização dessas valores. O Natal é o momento em que deveríamos, mas do que nunca, refletir sobre a incapacidade de construirmos uma sociedade melhor através dos nossos recursos e ideologias, pois, se assim não fosse, a Pax Romana já seria suficiente e o nosso Salvador não teria se feito carne para nos redimir.

Logo,

Se não há esperança para uma vida melhor e justificada diante de Deus longe do menino da manjedoura, se apenas Ele (como anunciou o anjo) pode nos livrar dos nossos pecados, precisamos acolher todo o desconforto e conforto que a vinda de Jesus trouxe ao mundo. Ele aquele que evidencia as nossas claras impossibilidades (“Simeão os abençoou e disse a Maria, mãe do menino: Eis que este menino está destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel e para ser alvo de contradição” – Lc 2.34). Assim como, é em Jesus que encontramos, sempre, uma nova oportunidade para sermos melhores diante de Deus e do nosso próximo. Reflitamos e decidamos hoje, como a serva do Senhor refletiu e decidiu se entregar ao seu Deus!

Feliz Natal!


[1] RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: A infância; Bruno Bastos Lins. São Paulo: Planeta, 2016.

Comentários

  1. É tema central para a humanidade, mesmo assim ou por isso mesmo, por obra maligna ou não, a humanidade afoga-se no seu próprio vômito.

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  2. Excelente texto, meu irmão. Assumir a perspectiva do advento sob a ótica de Maria, sem no entanto ofuscar a centralidade de Cristo, é desafiador. Abordagem muito válida. Parabéns

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