Black Mirror e o nosso futuro distópico: medicina predatória
“A morte é um dia que vale a pena viver” (Ana Cláudia Quintana)[1].
(Não contém spoiler)
A
frase da médica que se tornou referência em cuidados paliativos no Brasil, Ana
Cláudia Quintana, nos traz uma importante e ponderada reflexão sobre a
necessidade do nosso fim. Contrastando o tabu em se falar sobre a morte, a
autora utiliza uma linguagem simples e bastante acessível para nos colocar
diante desta nossa insuperável condição, visando remover os pavores naturais relacionados
a esse assunto e mostrando como a descontinuidade da nossa existência pode ser
uma melhor opção, frente a algumas tentativas médicas de prolongá-la.
No
entanto, para alguns entusiastas do movimento pós-humanista, todos esses
esforços psicológicos e existenciais estão com os dias contados: a morte será
apenas uma questão de tempo. Muito em breve, as NBICS, (sigla utilizada para
referenciar a convergência multidisciplinar das nanotecnologia, biotecnologia,
ciências da informação e tecnologias cognitivas), reverterão essa situação nos
disponibilizando outras formas de “existir”: melhores e superiores a nossa “antiga”
natureza humana já fadada a superação. Esta dimensão “prometeica”[2] da técnica nos faz
esquecer de um inteligente adendo dos intelectuais de Frankfurt: “a técnica e a
ciência podem se tornar ideologia”[3]. Dito de outro modo, os
avanços tecnológicos não são isentos de interesses humanos escusos.
Na
sociedade de mercado não há barreiras para a dimensão lucrativa destes
interesses, sendo estes instrumentalizados em torno de todas as áreas possíveis
do alcance técnico: comunicação humana, entretenimento, mundo corporativo,
educação. A partir desta “promíscua” interação, nos tornamos voluntariamente
seres híbridos obcecados por uma existência organicamente melhor ainda que seja
espiritualmente[4]
vazia.
Com
o aumento da expectativa da vida humana as tecnologias medicinais já se
tornaram a mais nova fronteira do capital. Ao transformar a própria vida em um
bem de consumo, suas múltiplas frentes (saúde mental, medicina regenerativa, neurocirurgia)
ocupam um espaço insubstituível no mundo dos negócios. É sobre esse assunto que
trata o primeiro episódio da sétima temporada da série Black Mirror: “Common
People”.
A
personagem Amanda, interpretada pela atriz Rashida Jones, é uma professora que após
um acidente em sala de aula tem uma parte do seu cérebro lesionado lhe
colocando em um quadro clínico vegetativo. Ao perceber o desespero do seu
esposo (Personagem: Mike, interpretado pelo ator Chris O’Dowd), uma das
enfermeiras lhe informa sobre uma nova Startup no mercado da saúde que, ainda
que não seja recomendada pessoalmente pela profissional, poderia ajudar na
recuperação da saúde da sua esposa: “Rivermind”.
Rivermind
é uma empresa responsável por uma tecnologia de ponta relacionada a medicina
neuronal. Após uma conversa com a promotora de vendas, seu esposo é esclarecido
do procedimento médico que será utilizado pela mais nova empresa, caso deseje
aderir ao plano de contratação: um tecido sintético substituirá a área do
cérebro lesionada, cuja possui um backup de “dados” que alimentará por sinais
via satélite a prótese colocada. Uma afeição de esperança invade o semblante do
seu esposo que decide aderir ao plano.
A
sua esposa “retorna” e sua vida volta a funcionar normalmente. Com o passar dos
dias, algumas intercorrências nos sinais emitidos pelos satélites fazem com que
Amanda apresente alguns “bugs” na sua consciência. Excesso de sono, emissão de
anúncios, queda na transmissão, uma série de problemas são apresentados, cujos
a empresa garante solucionar a partir da adesão de planos mais sofisticados e
mais caros.
Como
todos os episódios da série, observa-se que não há soluções para os dilemas
humanos; nem tecnológicas! Os criadores Charlie Brooker e Bisha K. Alinos,
lembram mais uma vez que as propostas distópicas da série não são hipóteses
abstratas, mas uma realidade que já grassa o nosso cotidiano. A morte adiada de
Amanda contrasta com uma “presença” que não é mais a dela, dependendo cada vez
mais dos novos planos que nunca se findam, à medida que serviços “melhores” e
mais artificialmente personalizados são disponibilizados pela empresa,
sufocando a vida financeira do casal.
Como em todos os episódios da série que apresentam o incurso técnico no corpo humano com vistas no seu aperfeiçoamento, a personagem deseja voltar ao seu estado “natural”, a sua “antiga” natureza. Parece ser realmente necessário morrer. Sobretudo, quando o ato de existir se torna uma intoxicação produzida pelo luxo digital, um privilégio desmedidamente pagável e totalmente dependente de uma Startup.
Longe de nos conferir mais “vida”, “Common People” parece nos convencer que os artifícios técnicos ainda não conseguem sobrepor o seu significado ao real sentido da nossa terminalidade.
[1] A frase se tornou
o título de um dos seus livros mais conhecidos. Além de médica, Ana Cláudia
também é poetisa e utiliza o pseudônimo “Quintana”, como uma clara referência
ao poeta gaúcho Mário Quintana. Para maiores informações sobre a autora: https://www.acqa.com.br/ana-claudia-quintana-arantes/.
[2] Remete ao mito de
Prometeu, personagem da mitologia grega que rouba o fogo dos deuses e entrega
aos homens. A expressão “prometeica” é utilizada como uma forma de categorizar
a falsa compreensão humana que relaciona a técnica com o progresso. Ao invés do
progresso, como salienta Zeus, os homens passariam a se destruir quando
começassem a dominar o fogo (técnica).
[3] MARCUSE apud HABERMAS).
HABERMAS, Jürgen. Técnica e Ciência como ideologia; tradução de Artur
Morão – Lisboa: Edições 70, 1968.
[4] Leia por “espiritual” aqui não apenas uma abertura teologicamente compreendida para a transcendência, mas, como afirma a autora, uma espécie de eixo central da condição humana capaz de se desprender da outras dimensões: sociais, orgânicas, familiares, a partir da experiência da morte iminente. Tal eixo permite ao ser humano um olhar “transcendente” sobre a sua vida, em virtude da percepção da sua condição terminal, independente do individuo possuir um credo religioso ou não. É uma condição espiritual, pois enseja uma compreensão e avaliação da totalidade da sua trajetória.



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