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Emerson Silva
Pastor congregacional, Teólogo e Doutor em Ciências da Religião.

“AS AFEIÇÕES SANTAS NÃO SÃO CALOR SEM LUZ”: POR UM DISCERNIMENTO DA CULTURA PENTECOSTAL

 

Sem o amor à verdade divina contemplada no intelecto, o “fervor espiritual” se torna meros afetos naturais e suscetíveis às paixões humanas mais “mundanas”, bastando-se a si mesmo e necessitando de conversão.

 

Aquilo que no período da minha adolescência era quase que inquestionavelmente entendido como "mover do Espírito" ou "transe espiritual", tornou-se em nossos dias uma espécie de “hit pentecostal”, cujos pregadores e artistas famosos (ou desejosos de sê-lo) estão cada vez mais envolvidos, evocando, inclusive, como elemento distintivo e defensável da sua identidade "pentecostal".

Os "pulos" e os "rodopios” fortemente divulgados nas redes sociais, que outrora era de um caráter um pouco mais comedido e identificável apenas em algumas reuniões das congregações, tornou-se hoje uma prática grupal, embalada com notas musicais e coreografias, deixando suficientemente claro para qualquer pessoa que nada de sobrenatural os está conduzindo nesse momento, sendo (na melhor das hipóteses) apenas a alegria compartilhada referente a sua expressão religiosa.

Não obstante, o perigo que cerca essas expressões por serem facilmente identificadas como falta de reverência e desequilíbrio cognitivo (dada a orientação do Apóstolo Paulo em 1 Coríntios 14.22-33ª sobre o falar em línguas, pergunto-me como ele reagiria se participasse de determinados "cultos" dessa natureza), é preciso deixar claro que sentimentos efusivos autênticos, oriundos de uma experiência espiritual profunda e verdadeira, são possíveis. No entanto, no que diz respeito à fé cristã, não existe "calor sem luz" (EDWARDS, 2018) e se faz necessário que compreendamos alguns pontos importantes para o correto discernimento dessas práticas.

Utilizo aqui a obra "As afeições Religiosas"[1] do congregacional inglês Jonathan Edwards, escrita como uma importante ferramenta de discernimento sobre experiências espirituais ocorridas no contexto do Primeiro Grande Despertamento[2]. As distinções por ele apontadas me parecem pertinentes e colocam em xeque a maior parte dos evangélicos que atribuem algum valor sobrenatural às suas marchas, pulos, rodopios, danças etc., sempre embalados pelos acordes do teclado e bateria ou das rimas de baixíssima qualidade musical estimulando o triunfalismo individual.

Para Edwards a alma humana possui duas faculdades que ele também chama de “afeições”: a do entendimento (razão e discernimento) e a da inclinação (vontade). A primeira está destinada a contemplar seus objetos de percepção e a segunda, por sua vez, está destinada a disposição a favor ou não do objeto percebido. A experiência adequada com o divino que envolve percepção e compreensão (primeira faculdade) poderia sim, produzir fervor espiritual, movendo nossas emoções em direção ao Deus da Bíblia (segunda faculdade). No entanto, para que este tipo de experiência não se torne incompreensivelmente subjetiva, Edwards aponta alguns pontos de discernimento. Saliento apenas um de caráter indispensável:

“As afeições santas não são calor sem luz”. Com isto, Edwards afirma que experiências espirituais profundas não são prescindíveis de uma clareza racional. Sentir-se cheio do Espírito exige que compreendamos aspectos cruciais do Ser de Deus, do nosso ser, da forma como se relaciona com a humanidade. Reações entusiasmadas que não decorrem de um exame profundo das verdades da nossa fé, podem ser, na melhor das hipóteses, apenas emoção. Sem nada de objetivamente frutífero, ao contrário do que nos orienta a experiência concreta de ser cheio do Espírito em Efésios 5.17-6.18, muitos crentes: “Atribuem muitas atividades de sua própria mente, que as agradam e envolvem, às influências especiais e diretas do Espírito de Deus, por isso ficam fortemente sensibilizados pelo privilégio que têm. (EDWARDS, 2018, p.171-173)”.

            Creio que essa seja a resposta para as pregações orgulhosas, emulação de virtudes, a busca indiscriminada pelo sucesso e a fama. Sem “luz”, a prepotência os cinge. Para Edwards: “Muitos têm sempre na boca uma palavra que dê a entender sua vileza, mas esperam, como direito deles, que os outros os vejam como santos brilhantes e eminentes; e ai de quem sequer dê a entender o contrário ou que se porte para com eles como se não os contasse entre os melhores cristãos” (EDWARDS, 2028, p.214). Sem o amor à verdade divina contemplada no intelecto, o “fervor espiritual” se torna meros afetos naturais e suscetíveis às paixões humanas mais “mundanas”, bastando-se a si mesmo e necessitando de conversão.



[1] EDWARDS, Jonathan. Afeições Religiosas; tradução de Marcelo Cipolla. São Paulo: Edições Vida Nova, 2018.

[2] Avivamento religioso de tradição protestante ocorrido na primeira metade do século XVIII nas Treze Colônias Americanas.


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